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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Matilde

MATILDE, nome de planta ou pedra ou vinho,
do que nasce da terra e dura,
palavra em cujo crescimento amanhece,
em cujo estio rebenta a luz dos limões.

Nesse nome correm navios de madeira
rodeados por enxames de fogo azul-marinho,
e essas letras são a água de um rio
que em meu coração calcinado desemboca.

Oh nome descoberto sob uma trepadeira
como a porta de um túnel desconhecido
que comunica com a fragrância do mundo!

Oh invade-me com tua boca abrasadora,
indaga-me, se queres, com teus olhos noturnos,
mas em teu nome deixa-me navegar e dormir.

Pablo Neruda, Cem sonetos de amor

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Canção de amor

Te amo, te amo, é minha canção
e aqui começa o desatino.

Te amo, te amo meu pulmão,
te amo, te amo minha videira,
e se o amor é como o vinho
és minha predileção
desde as mãos até os pés:
és a taça do depois
e a garrafa do destino.

Te amo pelo direito e o avesso
e não tenho tom nem tino
para cantar-te minha canção,
minha canção que não tem fim.

Em meu violino que desentoa
te declara meu violino
que te amo, te amo minha violoncela,
minha mulherzinha escura e clara,
meu coração, minha dentadura,
minha claridade e colher,
meu sal da semana escura,
minha lua de janela clara.

Pablo Neruda, O coração amarelo

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Não há muito que contar

Não há muito que contar,
para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.

Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.

Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.

Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.

Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.

Pablo Neruda, O mar e os sinos

Pablo Neruda

Pablo Neruda – amor, quantos caminhos até chegar a um beijo

AMOR, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em Taltal não amanhece ainda a primavera.

Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações

tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.

Pablo Neruda, Cem sonetos de amor

Pablo Neruda

Pablo Neruda – O amor

Te amei sem por quê, sem de onde, te amei sem olhar, sem medida,
e eu não sabia que ouvia a voz da férrea distância,
o eco chamando à greda que canta pelas cordilheiras,
eu não supunha, chilena, que tu eras minhas próprias raízes,
eu sem saber como entre idiomas alheios li o alfabeto
que teus pés miúdos deixavam andando na areia
e tu sem tocar-me acudias ao centro do bosque invisível
a marcar a árvore de cuja casca voava o aroma perdido.

Pablo Neruda, A barcarola

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Tendes que ouvir-me

Eu fui cantando errante,
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.
O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.
O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.
Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.
Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.
Todos eram iguais.
Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.
Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.
Todos.
Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.
Agora tendes de ouvir-me.

Pablo Neruda, As uvas e o vento

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Os dias

Quem separa o ontem da noite e do hoje que emprenhava sua taça?
E que lâmina de água incessante ou de bronze roído ou de gelo
impediu que acudisse meu peito às chamas que me
procriaram?
E quem sou? pergunto às ondas quando enfim naveguei sem navio
e pude me dar conta que o mar eu mesmo o levava nos olhos.
No entanto este dia que ardeu e consumiu sua distância
deixou para trás suas sombrias origens, olvidou a uterina treva,
e cresceu como a levedura levantando para cima os braços
até que desagregou a substância da luz que o favorecia,
e se foi separando do céu até que convertido outra vez em família da fumaça
se desfez na sombra que outra vez convertida em abelha
saía voando na luz de outro dia radiante e redondo.

Pablo Neruda, A barcarola

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Te amo

Amante, te amo e me amas e te amo,
são curtos os dias, os meses, a chuva, os trens;
são altas as casas, as árvores, e somos mais altos;
se acerca na areia a espuma que quer beijar-te;
transmigram as aves dos arquipélagos
e crescem em meu coração tuas raízes de trigo.

Não há dúvida, amor meu, que a tempestade de setembro
caiu com seu ferro oxidado sobre tua cabeça
e quando, entre rajadas de espinhos te vi caminhando indefesa,
tomei tua guitarra de âmbar, pus-me a teu lado,
sentindo que eu não podia cantar sem tua boca,
que eu morria se não me olhasses chorando na chuva.

Porque os quebrantos de amor à beira do rio,
porque a cantata que em pleno crepúsculo ardia em minha sombra,
por que se encerraram em ti, chillaneja* fragrante,
e restituíram o dom e o aroma que necessitava
minha roupa gasta por tantas batalhas de inverno?

Pablo Neruda, A barcarola

Pablo Neruda

Pablo Neruda – A cidade

A SOMBRA deste monte protetor, propício, 
como manta indiana aérea e rural me cobre:
bebo azul do céu por meus olhos sem vício
como um terneiro mama o leite em tetas nobres.

Ao pé da colina a cidade deita e eu sinto,
sem querer, sempre a rodar os tranways urbanos:
a igreja se eleva para cravar o vento,
mas vagabundo foge em mãos e desenganos.

Cidade, és triste e cinza. Tens as ruas largas,
e um odor de armazém por tuas ruas passeia.
Encontro as águas dos teus poços mais amargas.
As almas de teus homens me parecem feias.

Não sabem a beleza da fonte que canta,
nem de quem a transvasa e floresce em conceito.
Que não vai parar nunca, a água na garganta, 
dos seus corações se vai ao verso perfeito.

Cidade, és gris e triste. Se estou só eu penso
que a ausência parece aproximar-se de mim. 
Regresso, até o céu tem um bocejo imenso.
Cresce em minha alma um ódio, anterior, intenso.

Aqui ela vive e fim

 

Pablo Neruda, Crepusculário

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Final

FORAM CRIADAS por mim estas palavras
com o meu sangue e com as dores minhas
foram criadas!
Tudo eu compreendo, amigos, eu compreendo tudo.
Misturaram-se vozes alheias às minhas,
tudo eu compreendo, amigos!
Como se voar eu quisesse e me chegassem
para me ajudar as asas das aves,
todas as asas,
assim vieram as palavras estrangeiras
desatar a ebriedade escura de minha alma.

É manhã, e parece
que não se me apertaram as angústias
em tão terríveis nós em torno da garganta.
E no entanto,
foram criadas,
com o meu sangue e com as dores minhas,
foram criadas por mim estas palavras!

Palavras para alegria
quando era meu coração 
uma coroa de chamas
palavras de dor que penetra,
e dos instintos que remordem,
e dos impulsos que ameaçam,
e dos infinitos desejos,
e das inquietudes amargas,
palavras de amor que em minha vida florescem
como terra roxa cheia de umbelas brancas.

Não caiam em mim, nunca couberam.
Menino minha dor foi grito,
foi minha alegria silêncio.

Depois os olhos
esqueceram as lágrimas
do coração de todos varridos no vento.

Agora, digam-me, amigos,
onde esconder aquela aguda 
fúria de soluços.

Diga-me, amigos, onde
esconder o silêncio para que ninguém
nunca o sentisse com os ouvidos ou olhos.

As palavras vieram e meu coração,
incontido como um amanhecer,
rompeu-se nas palavras, no apego do vôo,
e em suas fugas heróicas o levam e arrastam,
adandonando e louco, e esquecido sob elas
como um pássaro morto, embaixo de suas asas.

 

Pablo Neruda, Crepusculário

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Dá-me a festa mágica

DEUS – e de onde é que tiras para acender o céu
este maravilhoso entardecer de cobre?
Por ele soube encontrar de novo a alegria,
e a má visão eu soube torná-la mais nobre.

Nas chamas coloridas de amarelo e verde
iluminou-se a lâmpada de um outro sol
que fez rachar azuis as planícies do Oeste
e verteu nas montanhas suas fontes e rios.

Deus, dá-me a festa mágica na minha vida,
dá-me os teus fogos para iluminar a terra,
deixa em meu coração tua lâmpada acendida
pura que eu seja o óleo de tua luz suprema.

E eu irei pelos campos na noite estrelada
com os braços abertos e a face desnuda,
cantando árias ingênuas com as mesmas palavras
com que na noite falam os campos e a lua.

Pablo Neruda, Crepusculário

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Saudade

SAUDADE… — Que será.. eu não sei… tenho buscado
em certos dicionários poeirentos e antigos
e outros livros que ocultam o significado
dessa doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que as montanhas são azuis como ela,
que nela empalidecem longínquos amores,
e um nobre e bom amigo meu (e das estrelas)
nomeia com os cílios e as mãos em tremores.

E no Eça de Queiroz sem olhar a adivinho,
o segredo se evade em sua doçura e sede,
com essa mariposa, corpo em desalinho,
Sempre longe – tão longe! – das minhas calmas redes.

Saudade… tens, vizinho, o real significado
dessa palavra branca que, peixe, se evade?
Não… trem na boca seu tremor delicado…
Saudade…

Pablo Neruda, Crepusculário

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Grita

AMOR, quando chegares na fonte distante,
cuida para não me morder com voz de sonho:
para que a minha dor não morra nas tuas asas,
que na garganta de ouro voz não se afogue.

Amor – quando chegares
na fonte mais distante,
sê turbilhão que assola,
sê rompante que crava.

Amor, desfaz o ritmo
da minha água tranquila:
saibas tu ser a dor que retine e que sofre,
saibas tu ser a angústia que retorce e grita.

Não seja eu esquecido
não me dês a ilusão
Porque todas as folhas que caíram na terra
foram tingindo de ouro meu coração.

Amor – quando chegares
na fonte mais distante,
desvia minhas vertentes,
crispa as minhas entranhas.
E assim uma tarde – Amor que tens as mãos cruéis -,
ajoelharei ante de ti e te darei graças.

Pablo Neruda, Crepusculário

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Amor

MULHER, teria sido teu filho por beber
o leite dos teus seios como um manancial,
por te olhar e te sentir ao meu lado e ter
tido em teu riso de ouro uma voz essencial.

Por te sentir em minhas veias um Deus no rio
e te adorar nos tristes ossos de pó e cal,
porque teu ser passou sem pena e sem ter vício
saindo na estrofe pura – limpo desse mal -.

Como eu saberia te amar, mulher, saberia
amar, e amar, ninguém amou assim jamais!
Morrer e no entanto
amar-te mais.
E no entanto
amar-te mais
e mais

Pablo Neruda, Crepusculário

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Tenho fome da tua boca

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo, 
e ando pelas ruas sem comer, calado, 
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta, 
busco no dia o som líquido dos teus pés. 

Estou faminto do teu riso saltitante, 
das tuas mãos cor de furioso celeiro, 
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas, 
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa. 

Quero comer o raio queimado na tua formosura, 
o nariz soberano do rosto altivo, 
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas 

e faminto venho e vou farejando o crepúsculo 
à tua procura, procurando o teu coração ardente 
como um puma na solidão de Quitratue. 

 

Pablo Neruda, Cem sonetos de amor