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Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz – Dizer adeus amigo

Talvez uma hora, como saber qual?, tivesse
interrompido

o que agora é definitivo. Talvez uma sílaba,
como nas grandes máquinas a peça pequenina.

Tudo era implacável? Rumo definido?
Mas que são decretos antes de serem lidos?

Devia ter sido naquele tempo, antes do destino,
que, talvez um movimento, meu, de alguém,

um remédio, um telefonema, um e-mail,
um gesto,

e não pensaríamos agora em coisas absurdas
como Deus e o Universo. Talvez um dia,

qual teria sido?, e tudo fosse diferente, outro caminho.
Mas nada se fez. Tantas vezes nada se faz.

E o marujo seguiu só, sem nós,
que nunca deixamos de amá-lo.

Eucanaã Ferraz, Sentimental

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz – Quem roubou o rubi do chapéu do mandarim?

Disposto a versos, olhar de peixe
torto, arrisca à queima-roupa:
moça tão linda, mais linda se nua,
se fores minha, a lua há de ser tua.
A cuja recusa, não quer ser musa
e sai pisando mundos.

Na caixa, o velho chinês,
imperador de Mesquita e Pequim,
grita coisas em sua língua kung fu
enquanto espelho copos fumaça
tudo abate e rebaixa o homem só.
O garçom se aproxima: aquela

loura magricela sobrancelhas pretas
é feiticeira
transforma os sujeitos em sardinhas
e vende fritos na feira.
O homem só olhos arregala o susto
enquanto o garçom dentes enigmáticos

mostra na confusão engordurada
dos cartazes:
fiado e amor só amanhã.
Dentre o bando de coitados,
bem-aventurados os bem-aventurados
grita um doido filósofo

dentro de sua gravata vermelha, mas
o outro, o cavalheiro de cabeleira branca,
sente-se desgraçado como só pode
alguém com a esperança
de ser o mais infeliz de todos,
promete. Andar de peixe torto,

ganha a rua acelera o passo vai
aos pedaços até sumir
entre os carros
e restar, vista
do alto,

a Muralha da China.

Eucanaã Ferraz, Sentimental

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz – Recebei as nossas homenagens

Único homem acordado nesta noite, o apartamento
apertado parece imenso; vagueio desacordado de tudo
e sobretudo em desacordo comigo, único homem
acordado no mundo; o teatro estreito assim vazio

parece largo, perambulo absoluto, príncipe estragado;
não dormir é meu palácio; a Dinamarca, diminuta,
parece dilatar-se enquanto palmilho o ar do quarto.
Vem o dia, e o fantasma de meu pai não me aparece.

 

Eucanaã Ferraz, Sentimental

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz – Times Old Roman

Quer que o diga, não o digo,

o teu nome já não brilha
não o digo sob as cinzas

de janeiros muito antigos
mal respira nos escombros

desse breve apartamento
o teu nome quem diria

não é coisa que se diga
som de um som que

se partira não insista
já não tento já não posso

é simples o que te digo
e te digo sem remorso

calmamente sim repito
sem espanto não o digo

nenhuma pedra se move
rio seco letra morta.

 

Eucanaã Ferraz, Sentimental 

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz – Vem

Porque os dias quebravam contra sua cara, porque
trocara as horas por nada, quis o espinho extremo;
mas, sobre encontrá-lo, ninguém, nada respondia.
Saberia reconhecê-lo em meio a tudo? Algum sinal?
Um cisne gravado na testa? Talvez

bastasse, à distância, atentar nos modos de dobrar
ou desfazer frases um lenço quem sabe, no levar
água à boca, moeda à bolsa, banal, vislumbrasse
um rastro, mesmo sem saber agora, não saberia
nunca?, o que faria do acaso o certo, até que

se manifestasse numa forma inadiável e porque seria
assim avistaria na matéria mínima a sua fábrica,
o fogo que sobreviria contra a indiferença dos dias;
mas as ruas são compridas, era preciso estar mais perto
para perceber; e logo baralhava unhas vozes cabelos

à maneira de uma teia aos pedaços que o fazia adolescente
como um pombo tonto; mesmo sem vestígios, farejava;
o que as costelas dos viadutos escondiam? Ruas becos
subiam-lhe à boca enchendo-o de inocência e desejo;
envenenara-se com o anseio de que a cidade desaguasse

em alguém, não fosse tão só pedras de seus olhos
se ferirem; mais seguro era cegar as vontades; cerrados
os olhos calariam o teatro excessivo dos gestos; talvez
dormisse, mas a insônia vinha branca ácida alta.
Houve uma vez um comandante prussiano

recostado fundo na poltrona cavando com as esporas
de sua bota o mármore da lareira, lembrava,
era mais fácil deixar a solidão crescer no vento
vir ao quadril, lembrava do conto enquanto seus olhos
erravam, esperança em pelo, juízo em vão, fome

de um relance, um fio. Suave, se ainda soubesse, era
beber sem supor alguém após o drinque, gastar-se só,
sem presumir um abraço à saída do cinema, à saída
de sábado, mas ele sacrificaria qualquer ponderação
para persistir no engano de seguir à própria sorte

por mundos que semelhavam estacionamentos
abarrotados de frases moles blogs celulares
fazer amigos impressionar pessoas dicionários
como se fósforos para queimar o tempo o tédio,
saudade de quando não vagava devastado pela

espera, pela espora, dizia o conto, de uma lâmpada
após o labirinto, por aquela presença tão só pressentida
mas que talvez por adivinhada ardia ainda mais; tudo
(um exagero) escarnecia dele, sequioso de que regressasse
quem nem mesmo houvera, Ulisses ou o filho pródigo

caminhando sobre o mar etílico, turbulento. Canções
de amor foram o seu veneno, todas à roda da mesma
víscera, da mesma válvula sentimental, podia senti-la
sem amores nem romances, sangue e bomba só,
como no peito de um bicho que é apenas isso.

Então, exausto, sem nenhum grito, deitou-se sobre
a pedra escura da rua ou da escarpa mais alta da lua
mais miserável e suja e esteve ali, parado, manso,
sem que nada pedisse ao tempo ou pretendesse.
E era só uma noite entre as noites, quando despertou

agitado, deve ter sido assim, pela visão de uns lábios,
vinham acesos, na direção
dos seus.

 

Eucanaã Ferraz, Sentimental

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz – Uma gaivota viesse

O amigo, em Lisboa, pergunta o que quero de Lisboa;
nada, respondo, não quero senão o que não vem nos postais
mais um ou dois postais de lugares onde nunca fui feliz

e, ainda assim, agora e sempre, eu quis, não quero, Alberto,
de Lisboa senão o que ela não dá, o que ela guarda e é preciso
roubar, a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo,

quero isso, mais uma ou duas coisas que vêm nos guias de turismo.
Vê esses rapazes e moças de olhos azuis? São holandeses.
Esses deuses e essas flores azuis? São azulejos. Como trazê-los?

De nada valem os antiquários; quando voltamos de Lisboa, tudo
o que trazemos, percebemos, está partido, por isso, Alberto,
não vale a pena trazer nada, que daí só trazemos, sem dar conta,

o que nos parte,
o que nos corta,
mal fechamos a mala, mal abrimos a porta.

 

Eucanaã Ferraz, Sentimental

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz – Dance

Ele não é como uma pedra rolando.
Há método nos seus gestos de golfinho
de fonte de vaga de máquina de calcular

o modo como passa ao largo dos aquários
de formol onde os peixes são bois imóveis

faz pensar na surpreendente elegância de um bípede
quando está livre e quando não seja exatamente
de estar sobre os pés que se trata pois num golpe

o corpo sobre uma só pata se sustenta como um gato
que fosse também um pássaro

sobre as ruínas da bolsa modulando de tal modo
que a tela do telefone mal captura sua dança
entre cadáveres no pátio da biblioteca deserta

de onde salta para a escadaria do hospital
em turbilhão sobre pilhas de automóveis e rodopia

retesa enquanto repuxos de sangue aveludam
avenidas que pareciam inquebrantáveis mas
agora castelos em degelo sob pés em desafio:

cada contorcionismo é mais que desespero
e que beleza — é fora do tempo é sem narrativa
é ainda graça leveza cada gesto que

surge

desiludido e certo o dançarino surfa no fogo
e há centenas de milhares de garotos

iguais a ele.

 

Eucanaã Ferraz, Sentimental

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz – Exceto o que trazemos em nós

Tentou adivinhar a aurora esmiuçando
o intestino mínimo das aves, buscou-a
no fundo das xícaras porque soube que
boiava na borra do café um sentido

qualquer; olhos fechados para a evidência,
quis entender aquilo que se recusava
a seu alcance; mas agora nada disso
interessa; já não crê em Deus

e desacreditou dos deuses; danem-se
o marxismo, a psicanálise e outros
serviços de atendimento ao consumidor.
Acredita em Madame Thalita.

Por que não acreditaria? Resta lembrar
onde pôs o número do telefone
de Madame Thalita, que garante trazer
a pessoa amada em apenas três dias;

quatro mil trezentos e vinte minutos,
é muito. Se Madame Thalita traz os dias
de volta? Nem ela nem ninguém; melhor
assim, o tempo e nenhum mistério.

Eucanaã Ferraz, Sentimental