Quando eu não te tinha Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo… Agora amo a Natureza Como um monge calmo à Virgem Maria, Religiosamente, a meu modo, como...
Fernando Pessoa
Fernando Pessoa – O amor
O amor, quando se revela, Não se sabe revelar. Sabe bem olhar para ela, Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente Não sabe o que há...
Fosse eu apenas, não sei onde ou como, uma coisa existente sem viver, noite de vida sem amanhecer entre as sirtes do meu dourado assomo… Fada maliciosa ou incerto gnomo...
Quando olho para mim não me percebo. Tenho tanto a mania de sentir Que me extravio às vezes ao sair Das próprias sensações que eu recebo. O ar que respiro,...
Não tenho pressa: não a têm o sol e a lua. Ninguém anda mais depressa do que as pernas que tem. Se onde quero estar é longe, não estou lá...
Fernando Pessoa – Isto
Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou...
Dorme sobre o meu seio. Sonhando de sonhar… No teu olhar eu leio Um lúbrico vagar. Dorme no sonho de existir E na ilusão de amar. Tudo é nada, e...
Fernando Pessoa – Terceiro
Escrevo meu livro à beira-mágoa. Meu coração não tem que ter. Tenho meus olhos quentes de água. Só tu, Senhor, me dás viver. Só te sentir e te pensar Meus...
Agora que sinto amor Tenho interesse no que cheira. Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro. Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova....
Teu perfil, teu olhar real ou feito, Lembra-me aquela eterna ocasião Em que eu amei Semíramis, eleito Daquela plácida visão. Amei-a, é claro, sem que o tempo e espaço Tivesse...
No ouro sem fim da tarde morta, Na poeira de ouro sem lugar Da tarde que me passa à porta Para não parar, No silêncio dourado ainda Dos arvoredos verde...
Há doenças piores que as doenças, Há dores que não doem, nem na alma Mas que são dolorosas mais que as outras. Há angústias sonhadas mais reais Que as que...
Ó sino da minha aldeia, Dolente na tarde calma, Cada tua badalada Soa dentro da minha alma. E é tão lento o teu soar, Tão triste da vida, Que já...
Fernando Pessoa – Natal
Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade Nem veio nem se foi: o Erro mudou. Temos agora uma outra Eternidade, E era sempre melhor o que passou. Cega, a Ciência...
Fernando Pessoa – Autopsicografia
O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, Na dor lida...


