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Bráulio Bessa

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – A palmada da mãe não dói metade das palmadas que a vida dá na gente

Os mais sábios conselhos ela me deu
Sem tirar nem botar acertou tudo
É doutora da vida sem estudo,
Foi vivendo que ensinou e que aprendeu,
Com as pancadas dessa vida mãe sofreu
E mostrou até de forma inconsciente,
Que seus filhos precisavam ser descentes
E viver sempre com honestidade.
A palmada da mãe não dói metade
Das palmadas que a vida dá na gente.

Se a carne era pouca e o caldo ralo,
O pirão do amor tinha sustança
E as panelas todas cheias de esperança,
Nossa fé nunca sofreu nenhum abalo.
Mãe dizia filho escuta o que eu te falo,
Nessa vida seja sempre paciente
Cada um tem destino diferente;
Lute, cresça e nunca perca a humildade.
A palmada da mãe não dói metade
Das palmadas que a vida dá na gente.

Se um presente mais bonito eu lhe pedia,
Mãe dizia que não podia comprar.
Me zangava e começava a chorar,
Sem saber que muito mais nela doía.
Sem dinheiro pra fazer minha alegria,
Arranjava uma maneira diferente
E dizia que um dia mais na frente
Meu trabalho mataria essa vontade.
A palmada da mãe não dói metade
das palmadas que a vida dá na gente.

Até hoje quando eu dou um cheiro nela
Agradeça a Deus por ter minha mainha;
Mas para quem já perdeu sua rainha
Não se sinta só nem distante dela.
Entre a terra e o céu há uma janela
Com um vaso onde Deus planta a semente
Do amor que a mãe da gente sente
E é essa rosa que lhe protege da maldade.
A palmada da mãe não dói metade
das palmadas que a vida dá na gente.

Bráulio Bessa, Poesia com rapadura

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Quanto custa uma saudade?

A saudade de alguém que foi embora,
de um amigo, de um amor, de um parente,
de alguém que não está mais entre a gente,
Com o peito adoentado a alma chora.
Feito gripe que de noite só piora,
uma dor maior que vinte dor de dente,
judiando inté do cabra mais valente
sem sentir pena, dó, nem piedade.
Quer saber quanto custa uma saudade,
tenha amor, queira bem e viva ausente.

Tanto amor no meu peito estocado,
esperando por você que já partiu
tão depressa, nem se quer se despediu,
vez por outra me pergunto agoniado:
se a saudade mora mesmo no passado,
por que é que ela vive tão presente?
Hoje eu olho mais pra trás do que pra frente,
pra lembrar que já senti felicidade.
Quer saber quanto custa uma saudade,
Tenha amor, queira bem e viva ausente.

Feito um doido fico aqui lhe esperando,
a saudade já chegou, e você, nada.
Vou pra rua caminhando na calçada,
de repende eu tô num bar me embriagando,
no meu rosto uma lágrima rolando,
no balcão uma dose de água ardente
na vitrola do bar toca um repente
de um poeta chêi de sensibilidade.
Quer saber quanto custa uma saudade,
tenha amor, queira bem e viva ausente.

A saudade observando a minha dor,
me levou pra mesa de cirurgia,
sem ao menos aplicar anestesia
segurou meu coração e arrancou.
Nessa hora até a saudade chorou
percebendo todo mal que faz a gente,
viu seu nome gravado em ferro quente,
deu remorso do tamanho da crueldade.
Quer saber quanto custa uma saudade,
tenha amor, queira bem e viva ausente.

Se a saudade além de ferir, matasse,
com certeza eu já teria falecido,
mas nem morto eu teria lhe esquecido
nem a morte dava fim a esse impasse.
Cada vez que minha alma se lembrasse,
pediria a Deus de forma insistente,
que Ele desse um jeitinho diferente
pra juntar nós dois pro toda eternidade.
Quer saber quanto custa uma saudade,
tenha amor, queira bem e viva ausente.

Bráulio Bessa, Poesia com rapadura

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Fé, religião, amor e respeito

Respeite mais, julgue menos!
Perdoe mais, condene menos!
Abrace mais, empurre menos!
Faça mais, fale menos!

E se o assunto for religião,
seja razão, seja sua razão.
Mas também seja coração,
aliás, seja plural, seja corações
de todas as crenças,
de todas cores,
de todas as fés,
de todos os povos,
de todas as nações!

Não transforme sua fé
em uma cerca de arames cortantes!
Use ela pra se transformar
em alguém melhor que antes.
Em alguém melhor que ontem!

Se transforme,
transforme alguém,
afinal, do que vale uma prece
se você não vai além?
Se você não praticar o bem?!

Pratique o bem
sem olhar a quem!
Sem se preocupar com a crença de ninguém!
Pois acredite, Deus não tem religião também!
Deus é o próprio bem!

Deixe Deus, ser o Deus de cada um!
Deixe cada um ter o Deus que quiser ter!
Seja você! E deixe o outro ser o que ele quiser ser!

Seja menos preconceito!
Seja mais amor no peito!
Seja amor, seja muito amor!

E se mesmo assim for difícil ser
não precisa ser perfeito.
Se não der pra ser amor
seja pelo menos RESPEITO!


Bráulio Bessa, Poesia com rapadura

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Poesia que transforma

A poesia me transforma
em tantas formas.

Quando escrevo deixo de ser eu,
me transformo em ninguém
pra me transformar em todo mundo.

A poesia é transformação,
é verbo e ação.
Transformar…
O ódio em amar
O Sertão em mar
O silêncio em falar
A dor na coluna em dançar
A timidez em cantar
A desesperança em sonhar
O medo de altura em voar e saltar
A ré em recomeçar.

A poesia me transformou
e me fez transformador.

 

Bráulio Bessa, Poesia que transforma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Nunca é tarde

O tempo se escorrega
despretensiosamente,
não há força que segure
por mais que a gente tente,
cada minuto pra trás
foi um que andou pra frente.

E mesmo correndo doido
nesse galope feroz,
vez por outra ele amansa
e deixa de ser algoz,
inté parece que diz:
Dá tempo de ser feliz,
pois nunca é tarde pra nós.

Nunca é tarde pra viver
e aprender com a vida,
pra perceber que a estrada
nem sempre será florida
e que sempre há uma cura
até pra pior ferida.

Nunca é tarde pro rancor
se transformar em perdão,
pra perceber que nem sempre
você tem toda a razão,
pra sentir mais com a mente
e pensar com o coração.

Nunca é tarde pra ser bom
quando a maldade chegar,
nunca é tarde pra sorrir
quando a lágrima rolar,
nunca é tarde pra ser forte
quando o corpo fraquejar.

Acredite, nunca é tarde
pra abraçar um amigo,
pra proteger um estranho
que está correndo perigo,
nunca é tarde pro seu peito
se tornar um grande abrigo.

Nunca é tarde pra plantar
uma árvore no chão,
nunca é tarde pra ser grato
por nunca faltar o pão
e aprender a dividi-lo
com quem não tem um tostão.

Nunca é tarde pra sonhar
com algo quase impossível
e entender que a esperança
nem sempre será visível.
Nunca é tarde para o fraco
se tornar um imbatível.

Imbatível como o tempo
que todo dia avisa
que a conta que ele faz
quase sempre é imprecisa
e até a calculadora
não sabe e fica indecisa.

A conta de quando a peça
da vida sai de cartaz,
onde o ator principal
é você e ninguém mais.
O tempo é um segredo,
acredite, é muito cedo
pra dizer: Tarde demais.

 

Bráulio Bessa, Poesia que transforma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Imagine a paz

Um dia eu imaginei
um mundo sem armamentos,
sem brigas religiosas,
sem ataques violentos,
sem bombas, tiros e balas,
sem ninguém fazendo as malas
fugindo dos sofrimentos.

Um dia eu imaginei
um mundo sem terrorismo,
sem preconceito nenhum,
sem vingança, sem racismo,
sem a tal intolerância
munida pela ganância
e tanto individualismo.

Um dia eu imaginei
um mundo que não tem guerra,
que não se derrama sangue
por um pedaço de terra.
Sem grade, muro, barreira.
Às vezes numa poeira
a humanidade se enterra.

Um dia eu imaginei
um mundo sem ditadores,
um mundo sem julgamentos
desses falsos julgadores
que enchem nossos caminhos
com um monte de espinhos
e arrancam nossas flores.

Um dia eu imaginei
um jornal com a matéria:
O mundo hoje está livre
de toda fome e miséria
que as guerras têm causado
deixando o homem curado
dessa doença tão séria.

Nesse mundo, todo mundo
sabia se respeitar,
cada um com sua fé,
com seu jeito de pensar,
buscando fazer o bem
sem fazer mal a ninguém,
procurando melhorar.

Nesse mundo, todo mundo
podia se abraçar,
conhecer outras culturas,
ir pra longe e viajar,
apreciar a beleza
carregando a certeza
de que um dia pode voltar.

Nesse mundo, todo mundo
entendia o que era amar,
repartia cada pão,
fazia o bem sem cobrar,
convivendo em harmonia,
e sempre que alguém caía
tinha alguém pra levantar.

Nesse mundo, todo mundo
aprendeu a ajudar,
a olhar também pro outro
com a missão de cuidar
com amor e alegria,
e sempre que alguém sofria
tinha alguém pra confortar.

Parece até fantasia,
difícil de acreditar.
Há quem diga que é bobagem,
que é loucura imaginar.
Mas não perco a esperança,
é imaginando a mudança
que se começa a mudar!

Bráulio Bessa, Poesia que transforma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Honestidade

Na lavoura dessa vida
desde cedo eu pelejei.
Recordo cada semente
que na terra eu sepultei,
e tive que aprender
que eu só podia colher
da árvore que plantei.

Aprendi que muito cedo
o cabra já é testado,
pois tem sempre dois caminhos,
frente a frente, lado a lado,
e a gente tem que escolher
a estrada a percorrer
e o caminho a ser trilhado.

Não sou culto, nem letrado,
vermelho, falo “vermeio”,
caminho de pés no chão
e nunca achei isso feio.
Feio é quem não aprendeu
a cuidar do que é seu
pra cobiçar o alheio.

Eu já vi muita família
passando por precisão,
cinco, sete, até dez filhos
na seca lá do sertão
no meio da desigualdade
vencendo a dificuldade
sem nenhum virar ladrão.

Todo dia eu peço a Deus
saúde pra trabalhar,
que me dê sabedoria
e coragem pra lutar
e que eu perceba, sim,
que só vem até a mim
aquilo que eu for buscar.

Que eu não sinta inveja
da riqueza de ninguém.
E se um dia eu enricar
que eu não esqueça também
que, grã-fino ou da ralé,
a gente é o que é,
e não aquilo que tem.

Aquilo que tem valor
dinheiro não vai comprar,
sentimentos, atitudes,
histórias pra se contar.
Todo o resto é passageiro
e no dia derradeiro
ninguém consegue levar.

Será mesmo que compensa
ter barco, moto e carrão,
ter conforto e segurança
morando numa mansão
mas quando olhar no espelho
dar de cara com um ladrão?

E olhando pro espelho,
refletindo a consciência,
é que a gente descobre,
sem precisar de ciência,
com toda a simplicidade,
que caráter e honestidade
vêm de dentro da essência.

E é justo essa essência
que mostra nossa beleza,
seja o cabra rico ou pobre,
plebeu ou da realeza.
Ter na conta honestidade
é nossa maior riqueza.

Bráulio Bessa, Poesia que transforma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Um matuto em Nova Iorque

Um matuto em Nova Iorque
My brother, sou nordestino
nascido lá no sertão.
Whisky pra mim é cana
misturada com limão.
Matuto do pé rachado,
danço forró e xaxado
e adoro cantoria.
Na minha terra é assim,
o tal do bacon é toicim
e Mary lá é Maria.

Vim bater em Nova Iorque,
conhecer outra cultura.
Vi gente de todo tipo
e prédio de toda altura.
Muita luz, badalação,
movimento, agitação,
dialeto diferente,
sorry, thank you e oqueis.
Mas não sei falar inglês
fico aqui com meu oxente.

Tô aqui na Times Square
mas prefiro o meu terreiro
onde a vida não tem pressa,
não passa assim tão ligeiro.
Aqui tem loja grã-fina,
muita luz que ilumina
e tudo pra ser comprado.
Porém lá no meu sertão
o crédito do cartão
é o caderno do fiado.

Ali tem cachorro-quente,
mas não vale uma buchada.
Hambúrguer não chega aos pés
de carne de sol torrada.
Milho assado na fogueira,
rapadura, macaxeira,
castanha feita na brasa.
Caminhei e dei um giro
e tô certo que prefiro
a rua da minha casa.

Nova Iorque é muito bela,
dá pro cabra se encantar,
porém toda essa beleza
não consegue superar
minha cidade, meu canto,
meu pequeno Alto Santo
que eu amo e quero bem.
Sou mais um cabra da peste
e não troco o meu Nordeste
por States de ninguém.

Bráulio Bessa, Poesia que transforma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Pai: desconhecido a eterno

Talvez no primeiro toque,
talvez no primeiro olhar,
talvez na primeira vez
que eu ouvi você falar,
que eu segurei sua mão,
que recebi atenção,
pequeno, recém-nascido,
eu não tive consciência
e essa minha inocência
lhe fez um “Desconhecido”.

O tempo não muda os olhos
mas mudou o meu olhar,
passei a lhe conhecer,
passei a lhe admirar,
e, muito observador,
observei que amor
é algo que se constrói.
Ali tinha percebido
que aquele desconhecido
já era meu grande herói.

Com o tempo acelerando
eu cresci mais um pouquinho
é quando a gente acredita
que já conhece o caminho
e você, pai, insistia
contra minha rebeldia
me mostrando a direção
e o olhar do adolescente
passa a lhe ver diferente:
o herói vira vilão.

E você, tão paciente,
espera o tempo passar
com a virtude dos justos
e o dom de perdoar
me vê amadurecer
e perceber que você
é cuidado, é abrigo,
é conselho, é proteção,
e de repente o vilão
vira meu melhor amigo.

E o tempo ainda acelera
não volta, só vai pra frente
resta guardar o passado
e aproveitar o presente.
Do seu lado o futuro
nem parece inseguro
e o hoje é intensidade.
O tempo não vai parar
e um dia, sem avisar,
o amigo vira saudade.

É aí que carne e osso
se transformam em sentimento
dessa vez o tempo para
e é justo nesse momento
que aquele “Desconhecido”
jamais será esquecido.
Um sentimento tão terno
um amor que é de verdade
faz o que era saudade
se transformar em “Eterno”.

Bráulio Bessa, Poesia que transforma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Sempre haverá esperança

Enquanto o amor pesar
mais que o mal na balança,
enquanto existir pureza
no olhar de uma criança,
enquanto houver um abraço,
há de haver esperança.

Enquanto nosso perdão
for mais forte que a vingança,
enquanto se acreditar
que quem acredita alcança,
enquanto houver ternura,
há de haver esperança.

Enquanto você sorrir
por uma boa lembrança,
enquanto você lutar
com uma força que não cansa,
enquanto você for forte,
há de haver esperança.

Enquanto a canção tocar,
enquanto seu corpo dança,
enquanto nossas ações
forem nossa grande herança,
enquanto houver bondade,
há de haver esperança.

Enquanto se acreditar
numa sonhada mudança…
pelo fim da violência,
pelo fim da insegurança,
enquanto existir a vida,
há de haver esperança.

Esperança no amanhã
e no agora também.
Tenha pressa, é urgente,
não espere por ninguém.
Não adianta esperança
se você não faz o bem.

Transforme sua esperança
em algo que não espera.
É no meio da maldade
que a bondade prospera.
É justo no desespero
que a paz chega e impera.

É quando se está sozinho
que um abraço tem valor.
Repare que é no frio
que a gente busca o calor.
E é justo onde existe ódio
que tem que espalhar amor.

Não adianta assistir,
não adianta observar,
se você não se mexer,
as coisas não vão mudar.
E até a esperança
vai cansar de esperar.

O mundo já lhe esperou
desde a hora de nascer.
Lhe apresentou a vida
e fez você entender
que se o problema é o homem,
o homem vai resolver.

Afinal, a gente nasce
sem trazer nada pra cá,
na hora de ir embora
o mesmo nada vai levar.
O que importa de verdade
é o que a gente vai deixar.

Bráulio Bessa, Poesia que transforma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Natal

Que você, nesse Natal,
entenda o real sentido
da data em que veio ao mundo
um homem bom, destemido
e que o dono da festa
não possa ser esquecido.

Vindo lá do Polo Norte
num trenó cheio de luz
Papai Noel é lembrado
muito mais do que Jesus.
Ô balança incoerente
onde um saco de presente
pesa mais que uma cruz.

Sei que dar presente é bom
mas bom mesmo é ser presente
ser amigo, ser parceiro
ser o abraço mais quente
permitir que nossos olhos
não enxerguem só a gente.

Que você, nesse momento,
faça uma reflexão
independente de crença,
de fé, de religião
pratique o bem sem parar
pois não adianta orar
se não existe ação.

Alimente um faminto
que vive no meio da rua,
agasalhe um indigente
coberto só pela lua,
sua parte é ajudar
e o mundo pode mudar
cada um fazendo a sua.

Abrace um desconhecido,
perdoe quem lhe feriu,
se esforce pra reerguer
um amigo que caiu
e tente dar esperança
pra alguém que desistiu.

Convença quem está triste
que vale a pena sorrir,
aconselhe quem parou
que ainda dá pra seguir,
e pr’aquele que errou
dá tempo de corrigir.

Faça o bem por qualquer um
sem perguntar o porquê,
parece fora de moda
soa meio que clichê,
mas quando se ajuda alguém
o ajudado é você.

Que você possa ser bom
começando de janeiro
e que esse sentimento
seja firme e verdadeiro.
Que você viva o Natal
todo ano, o ano inteiro.

Bráulio Bessa, poesia que transforma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – É preciso mudar

Caminhe por outra rua
Mude os móveis de lugar
Use aquela roupa velha
Na pressa, pode esperar.
Corte, pinte seu cabelo
Sem seguir nenhum modelo
Pois é preciso mudar.

Pinte a parede da sala
Sem medo de se sujar
Devore a lasanha, a coxinha
Sem culpa por engordar.
Frequente novos lugares
E respire novos ares
Pois é preciso mudar.

Escreva uma carta à mão
E esqueça o celular
Visite alguém que faz tempo
Que não vem lhe visitar.
Fale mais, digite menos
Construa em novos terrenos
Pois é preciso mudar.

Aprenda uma nova língua
Talvez volte a estudar
Tome mais banhos de chuva
Deixe a vida lhe banhar.
Pule muros e barreiras
Crie novas brincadeiras
Pois é preciso mudar.

Há mudança até na dor
Basta a gente observar
Deixar a casa dos pais
Mesmo querendo ficar.
Ver amigos indo embora
Sentir a dor de quem chora
Sofrer também é mudar.

Perder aquele emprego
Não ter grana pra gastar
Estudar pra um concurso
E mesmo assim, não passar.
Ser largado, ser traído
Se sentir meio perdido
Sofrer também é mudar.

O vento que às vezes leva
É o mesmo vento que traz
Leva o velho e traz o novo
Se renova, se refaz.
Transforma agito em sossego
Desconforto em aconchego
Faz a guerra virar paz.

A vida, o mundo e o tempo
Nos mudam desde criança
Modificam nossos sonhos
Renovam nossa esperança.
E a mudança mais feroz
Fazendo tudo de nós
Um dia virar lembrança.

O tempo é um piloto louco
Que gosta de acelerar
Não vê placas nem sinais
E sempre vai avançar.
Modificando o sentido
Faz “viver” virar “vivido”
Basta um segundo passar.

Pra mudar basta existir
Ninguém pode controlar
Pois tudo que é vivo muda
Viver é se transformar.
Viver é evoluir
E ao deixar de existir
Até morrer é mudar.

Bráulio Bessa, Poesia que transforma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – O encontro dos sentimentos

Outro dia acordei cedo
o sol nem tinha raiado,
no terreiro lá de casa
escutei um cochichado.
Curioso, eu cheguei perto
pra mode saber ao certo
o que era conversado.

Falavam da violência
que o mundo vem sofrendo,
da conta que o povo paga
sem sequer estar devendo
e de como a maldade
em toda a velocidade
todo dia está crescendo.

Foi aí que eu percebi
que era uma reunião.
Virtudes e Sentimentos
debatendo essa questão.
E a Razão disse à Bondade:
“Só se muda a humanidade
consertando o coração.”

A Paz também tava lá,
já que a paz é um sentimento,
ferida e chorando muito,
naquele exato momento
decidiu pedir ajuda
e disse: “Ou o homem muda
ou aumenta o sofrimento.”

Nessa hora levantou
a tranquila Paciência
dizendo que conseguia
evitar a violência,
mas que tava complicado
nesse mundo estressado
sem usar a consciência.

Foi quando se ouviu a voz
firme e forte do Respeito
que disse: “A violência
é irmã do preconceito.
Respeitando o diferente,
o homem anda pra frente;
talvez esse seja o jeito.”

A Honestidade disse:
“Você tem toda a razão
mas acrescente na lista
o fim da corrupção.
O retorno é garantido
se o dinheiro é investido
numa boa educação.”

Eu continuei ouvindo
quando o Perdão falou:
“Ah, se o povo me usasse
como um bom homem me usou,
ensinando uma lição
derramando seu perdão
a quem lhe crucificou.”

A Sabedoria, eufórica,
abraçou-se com o Perdão
e gritou: “Só tem um jeito,
é fazer uma inversão
vivendo bem diferente,
sentindo mais com a mente
e pensando com o coração.”

Com um vestidinho verde,
avistei uma criança
dizendo: “Eu acredito
nessa sonhada mudança
e um dia vamos sorrir
sem pensar em desistir
pois meu nome é Esperança.”

Já no fim da reunião
levantou-se um senhor
com um crachá na camisa
escrito a palavra Amor.
E disse: “Nossa mistura
é, sim, a única cura
que alivia essa dor.”

É unindo a esperança,
a paciência, o perdão,
respeito, sabedoria,
a bondade e a razão,
restaurando a paz no mundo,
guardando tudo no fundo
da mente e do coração.

Bráulio Bessa, Poesia que transforma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Grande interior

Eu saí lá do sertão
e cheguei na capital
desconfiado, nervoso,
suando e passando mal
com medo da violência
e com minha inocência
enfrentei esse dilema
decidindo caminhar
em busca de encontrar
a solução do problema.

Caminhando na calçada
eu vi o povo contente
jogando conversa fora
com um olhar inocente.
Eu pensei: Tem algo errado,
só posso estar enganado,
achei que era diferente.

Avistei um shopping center
chamado Shopping do Zé
onde se vende fiado
na confiança e na fé.
Ainda tinha cortesia,
na porta Dona Maria
oferecia um café.

Ao lado do shopping center
um condomínio enfeitado
sem portaria, sem muros
muito bem arborizado
com passarinhos cantando
e a criançada brincando
sem ninguém ser enjaulado.

Eu fui me aproximando
prestando mais atenção,
quando vi já tava dentro
pois lá não tinha portão.
Reparei cada criança,
renovei minha esperança
e acalmei meu coração.

Vi um empinando pipa,
outro soltando pião,
pega-pega, esconde-esconde
de pés descalços no chão
sem nenhum aplicativo,
brincando só de ser vivo
sem um celular na mão.

As avenidas de terra
sem concreto, sem asfalto,
não tinha sinal de trânsito,
o respeito era mais alto.
De noite se via a lua
e passeava na rua
sem nenhum medo de assalto.

No lugar de cada poste
se plantou uma goiabeira
onde qualquer um colhia
sem precisar ir à feira.
E a sombra ainda servia
pras amigas de Maria
fofocar muita besteira.

Não avistei um mendigo
deitado numa calçada.
Eu não vi uma mulher
sofrendo assediada.
Nem ninguém perdendo a vida
por uma bala perdida…
Eu vi a paz restaurada.

No final do entardecer
o sol se pôs devagar
e todo mundo assistiu,
ninguém quis fotografar,
pois todo mundo sabia
que na tarde que viria
ele estaria por lá.

Foi aí que eu acordei
desse sonho tão bonito.
Parece coisa de doido,
soa meio esquisito,
mas eu vi que a solução
tava lá no meu sertão,
feita de paz e amor.
Se essa cidade gigante
vivesse de hoje em diante
como um grande interior.

Bráulio Bessa, Poesia que transforma

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Vira-lata

Já era tarde da noite
eu avistei lá na rua
um cachorro bem franzino
coberto só pela lua.
Faminto, usando as patas
ele revirava latas
em busca de alimento,
um animal indigente
condenado inocente
a viver no sofrimento.

Seguiu caminhando torto
vagando pelas calçadas
se defendendo de chutes
desviando de pedradas.
Até que um bom senhor
num gesto de puro amor
lhe disse: “Vamos pra casa!”
E eu garanto a vocês
que foi a primeira vez
que eu vi um anjo sem asa.

Porém, antes de levá-lo,
o homem deu uma lição
quando abraçou o cachorro
lhe implorando perdão
em nome do ser humano
tão cruel, tão leviano,
de bondade tão escassa.
Ah, se o homem mudasse,
se nossa raça chegasse
aos pés da sua raça.

A raça que se divide
pra multiplicar amor
nascido de uma ninhada
de todo tipo de cor
que tem em sua linhagem
o pedigree da coragem
da luta, da resistência,
isso sim é raça pura
pois quanto mais se mistura,
mais forte é a sua essência.

O senhor ainda disse
pra quem não compreendeu:
“Quer saber que raça é essa?
Repare o que ele sofreu.
Os medos que superou,
cada dor que suportou
mesmo sem ferir ninguém
punido por ser mistura
mas no fundo raça pura
o homem também não tem.”

Todo homem é vira-lata
pois vive desde menino
levando chutes da vida
e pedradas do destino
que muitas vezes sem dono
passa medo, perde o sono
precisando de um amigo.
O tempo lhe envelhece
o mundo às vezes lhe esquece
e vai parar num abrigo.

Todo mundo ali ouvindo
o que o senhor dizia
e ele disse: “Vira lata,
vira amor, vira alegria,
pelo menos um segundo
vire a alma desse mundo
ao avesso, como a sua.
O homem melhoraria
talvez até cresceria
se virasse um cão de rua.”

Bráulio Bessa, Poesia que transforma