Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini – A melhor juventude

Senhor, estamos sós,    já não nos chamas mais!

Não nos escutas mais    ano a ano, dia a dia!
Pra cá, nossos escuros    pra lá, só Tua luz,
não tens por nossos males    nem ira nem piedade.
Passaram trinta séculos,    nada, nada mudou,
todo o povo se uniu    se uniu para o combate,
mas nossas trevas são    trevas de todos nós
e apartar luz e treva    só Tu mesmo é que sabes!
Dias de lida! Dias mortos!    Já desponta a carroça
no rumo na estação    pela praça quieta
e se detém na frente    da escadaria nova,
chiando no cascalho    que o pobre sol escalda.
Portões estão fechados,    dois caminhões esperam
parados entre escombros,    entre secas acácias,
e uma velhinha empurra    o carrinho apertando
ansiosa uma ponta    do lenço com os dentes.
O rapaz com a gaita    salta fora tocando
e o outro, mais novinho,    chicote na cintura,
dá forragem ao cavalo    e então entra dançando
bem diante dos outros,    vaidosos no balcão.
Cantam um pouco bêbados    bem cedo de manhã
com seus lenços vermelhos    em volta da garganta,
pedindo com voz rouca    quatro litros de vinho
e café para as moças    que já choram caladas.
Venham, trens, e carreguem    esses jovens que cantam
com seus blusões ingleses    e camisetas brancas.
Venham, trens, e carreguem    pra longe a juventude
a buscar pelo mundo    o que aqui se perdeu.
Levem, trens, pelo mundo    a não rir nunca mais
estes jovens alegres    enxotados da aldeia.

 

Pier Paolo Pasolini, Poemas

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