Perdi a conta das vezes que retomei esta escritura sem avançar de sítios pantanosos, tomando por melodia o que era um ranger de ferros de máquina contristada em seu limite....
Adélia Prado
Adélia Prado – A serenata
Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mãos incríveis tocar flauta no jardim. Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou...
Adélia Prado – Fotografia
Quando minha mãe posou para este que foi seu único retrato, mal consentiu em ter as têmporas curvas. Contudo, há um desejo de beleza no seu rosto que uma doutrina...
Adélia Prado – EH!
Têm cheiro especial as bolas de carne cozinhando. O cachorro olha pra gente com um olho piedoso, mas eu não dou. Comida de cachorro é muxiba, resto de prato. Se...
Adélia Prado – Hora de ângelus
A poesia é pura compaixão. Até grávida posso ficar, se lhe aprouver um filho apelidado Francisco. Tem mesmo alguma coisa no mundo que obriga o mundo a esperar. O carroceiro...
Adélia Prado – Bairro
O rapaz acabou de almoçar e palita os dentes na coberta. O passarinho recisca e joga no cabelo do moço excremento e casca de alpiste. Eu acho feio palitar os...
Adélia Prado – Mais uma vez
Não quero mais amar Jonathan. Estou cansada deste amor sem mimos, destinado a tornar-se um amor de velhos. Oh! nunca falei assim — um amor de velhos. Ainda bem que...
Adélia Prado – Regional
O sino da minha terra ainda bate às primeiras sextas-feiras, por devoção ao coração de Jesus. Em que outro lugar do mundo isto acontece? Em que outro brasil se escrevem...
Adélia Prado – Cabeça
Quando eu sofria dos nervos, não passava debaixo de fio elétrico, tinha medo de chuva, de relâmpio, nojo de certos bichos que eu não falo pra não ter de lavar...
Adélia Prado – Bendito
Louvado sejas Deus meu Senhor, porque o meu coração está cortado a lâmina, mas sorrio no espelho ao que, à revelia de tudo, se promete. Porque sou desgraçado como um...
Adélia Prado – Impressionista
Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo. Adélia Prado, Poesia reunida
Adélia Prado – Guia
A poesia me salvará. Falo constrangida, porque só Jesus Cristo é o Salvador, conforme escreveu um homem — sem coação alguma — atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança...
Adélia Prado – Sedução
A poesia me pega com sua roda dentada, me força a escutar imóvel o seu discurso esdrúxulo. Me abraça detrás do muro, levanta a saia pra eu ver, amorosa e...
Adélia Prado – Metamorfose
Foi assim que meu pai me disse uma vez: Você anda feito cavalo velho, procurando grota. As cigarras atrelavam as patas nos troncos e zuniam com decisão os seus chiados....
Adélia Prado – Poema esquisito
Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos. Não é hábito. É rarissimamente que ela dói. Ninguém tem culpa. Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos, não existe mais o...

