Depois da morte eu quero tudo o que seu vácuo abrupto fixou na minha alma. Quero os contornos desta matéria imóvel de lembrança, desencantados deste espaço rígido. Como antes, o...
Adélia Prado
Adélia Prado – Fé
Uma vez, da janela, vi um homem que estava prestes a morrer, comendo banana amassada. A linha do seu queixo era já de fronteiras, mas ele não sabia, ou sabia?...
Adélia Prado – Janela
Janela, palavra linda. Janela é o bater das asas da borboleta amarela. Abre pra fora as duas folhas de madeira à toa pintada, janela jeca, de azul. Eu pulo você...
Adélia Prado – Para o Zé
Eu te amo, homem, hoje como toda vida quis e não sabia, eu que já amava de extremoso amor o peixe, a mala velha, o papel de seda e os...
Adélia Prado – Trottoir
Minhas fantasias eróticas, sei agora, eram fantasias de céu. Eu pensava que sexo era a noite inteira e só de manhãzinha os corpos despediam-se. Para mim veio muito tarde a...
Adélia Prado – A boca
Se olho atentamente a erva no pedregulho uma voz me admoesta: mulher! mulher! como se me dissesse: Moisés! Moisés! Tenho missão tão grave sobre os ombros e quero só vadiar....
Adélia Prado – Tanta Saudade
No coração do irrefletido mau gosto a alegria palpita. Montes de borboletas entram janela adentro provocando coceiras, risos, provocando beijos. Como nós nos amamos e seremos felizes! Ah! Minha saia...
Adélia Prado – Impropérios
Senhor, escutai meu estrondoso medo. Tal é que nem minha boca se abre, tanto me espantam os sanitários e seus vasos, estes que só a flores e a Vosso Precioso...
Adélia Prado – Choro a capela
O poder que eu quisera é dominar meu medo. Por este grande dom troco meu verso, meu dedo, meus anéis e colar. Só meu colo não ponho no machado, porque...
Adélia Prado – Leitura
Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras. As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas fora do seu tempo desejadas. Ao...
Adélia Prado – Tempo
A mim que desde a infância venho vindo, como se o meu destino, fosse o exato destino de uma estrela, apelam incríveis coisas: pintar as unhas, descobrir a nuca, piscar...
Adélia Prado – Amor
A formosura do teu rosto obriga-me e não ouso em tua presença ou à tua simples lembrança recusar-me ao esmero de permanecer contemplável. Quisera olhar fixamente a tua cara, como...
Adélia Prado – Flores
A boa-noite floriu suas flores grandes, parecendo saia branca. Se eu tocasse um piano elas dançavam. Fica tão bom o mundo assim com elas, que nem me desprezo por querer...
Adélia Prado – Grande desejo
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia, sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia. Faço comida e como. Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o...
Adélia Prado – A casa
É um chalé com alpendre, forrado de hera. Na sala, tem uma gravura de Natal com neve. Não tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem. Mas afirmo...

