Eu quero amor feinho. Amor feinho não olha um pro outro. Uma vez encontrado, é igual fé, não teologa mais. Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por...
Adélia Prado
Adélia Prado – Linhagem
Minha árvore ginecológica me transmitiu fidalguias, gestos marmorizáveis: meu pai, no dia do seu próprio casamento, largou minha mãe sozinha e foi pro baile. Minha mãe tinha um vestido só,...
Adélia Prado – Corridinho
O amor quer abraçar e não pode. A multidão em volta, com seus olhos cediços, põe caco de vidro no muro para o amor desistir. O amor usa o correio,...
Adélia Prado – Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar...
Adélia Prado – O poder da oração
Em certas manhãs desrezo: a vida humana é muito miserável. Um pequeno desencaixe nos ossinhos faz minha espinha doer. Sinto necessidade de bradar a Deus. Ele está escondido, mas responde...
Adélia Prado – Instância
Eu cometi pecados, por palavras, por atos, omissões. Deles confesso a Deus, à Virgem Maria, aos santos, a São Miguel Arcanjo e a vós irmãos. A tão criticável tristeza e...
Arnalda, Alice e Armantilda são três mulheres piedosas que amam passar as tardes no serviço do templo. Arnalda, forte e bruta, lava teto, piso e paredes, lustra sacrário e átrio....
Adélia Prado – Gregoriano
O que há de mais sensual? Os monges no cantochão. Espalmo como só pode fazê-lo uma flor toda aberta, desperta a espumilha-rosa contra o melancólico e o cinza. “Um dia...
Adélia Prado – Esperando Sarinha
Sarah é uma linda menina ainda mal-acordada. Suas pétalas mais sedosas estão ainda fechadas, dormindo de bom dormir. Quando Sarinha acordar, vai pedir leite na xícara de porcelana pintada, vai...
Adélia Prado – Primeira Infância
Era rosa, era malva, era leite, as amigas de minha mãe vaticinando: vai ser muito feliz, vai ser famosa. Eram rendas, pano branco, estrela dalva, benza-te a cruz, no ouvido,...
Adélia Prado – O Guarda-chuva preto
Esquecido na mesa, com o cabo voltado para cima e as bordas arrepanhadas, é como seu dono vestido, composto no seu caixão. Não desdobra a dobradiça, não pousa no braço...

