Não tinha um adjetivo para o dia e desejei ficar triste. Fui moer lembranças, remoê-las com a areia pobre mas grossa de minha desmesurada moela. Em mim, tanto faz meu...
Adélia Prado
Dá a entender que me ama, mas não se declara. Fica mastigando grama, rodando no dedo sua penca de chaves, como qualquer bobo. Não me engana a desculpa amarela: ‘Quero...
Adélia Prado – Disritmia
Os velhos cospem sem nenhuma destreza e os velocípedes atrapalham o trânsito no passeio. O poeta obscuro aguarda a crítica e lê seus versos, as três vezes por dia, feito...
Adélia Prado – A carpideira
Que destino o das flores que recobriram a morta em seu caixão. Mais difícil entender que o miriágono! A marreca se deita sobre os ovos, puxa para o ninho as...
Adélia Prado – Vitral
Uma igreja voltada para o norte. À sua esquerda um barranco, a estrada de ferro. O sol, a mais de meio caminho para oeste. Tem uns meninos na sombra. Eu...
Adélia Prado – Limites
Uma noite me dei conta de que possuía uma história, contínua, desde o meu nascimento indesligável de mim. E de que era monótona com sua fieira de lábios, narizes, modos...
Adélia Prado – O alfabeto no parque
Eu sei escrever. Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras, composição escolar narrando o belo passeio à fazenda de vovó que nunca existiu porque ela era pobre como Jó. Mas escrevo...
Queria uma cidade abandonada para achar coisas nas casas, objetos de ferro, um quadro interessantíssimo na parede, esquecidos na pressa. Mas, sem guerra aparente e com a vida tão cara,...
Adélia Prado – Círculo
Na sala de janta da pensão tinha um jogo de taças roxo-claro, duas licoeiras grandes e elas em volta, como duas galinhas com os pintinhos. Tinha poeira, fumaça e a...
Adélia Prado – Orfandade
Meu Deus me dá cinco anos. Me dá um pé de fedegoso com formiga preta, me dá um Natal e sua véspera, o ressonar das pessoas no quartinho. Me dá...
Adélia Prado – Lembrança de maio
Meu coração bate desamparado onde minhas pernas se juntam. É tão bom existir! Seivas, vergônteas, virgens, tépidos músculos que sob as roupas rebelam-se. No topo do altar ornado com flores...
Adélia Prado – Sensorial
Obturação, é da amarela que eu ponho. Pimenta e cravo, mastigo à boca nua e me regalo. Amor, tem que falar meu bem, me dar caixa de música de presente,...
Adélia Prado – O amor no éter
Há dentro de mim uma paisagem entre meio-dia e duas horas da tarde. Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água, entram e não neste lugar de memória, uma lagoa rasa...
Adélia Prado – Subjeto
O cheiro da flor de abóbora, a massa de seu pólen, para mim, como óvulo de coelhas. — Vinde, zangões, machos tolos, picar a fina parede que mal segura a...
Adélia Prado – Casamento
Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e...

