Um elevador lento e de ferragens Belle Époque me leva ao antepenúltimo andar do Céu, cheio de espelhos baços e de poltronas como o hall de qualquer um antigo Grande...
Mario Quintana
Mario Quintana – Lunar
As casas cerraram seus milhares de pálpebras. As ruas pouco a pouco deixaram de andar. Só a lua multiplicou-se em todos os poços e poças. Tudo está sob a encantação...
O vento vinha ventando Pelas cortinas de tule. As mãos da menina morta Estão varadas de luz. No colo, juntos, refulgem Coração, âncora e cruz. Nunca a água foi tão...
Mario Quintana – Retrato
Morreu ontem. Portanto, o seu retrato está completo. A longa vida — sabe Deus com que trabalho — deixou-nos, na lembrança, por final, em companhia de um velhinho suave… Mas...
Mario Quintana – Noturno
Este silêncio é feito de agonias E de luas enormes, irreais, Dessas que espiam pelas gradarias Nos longos dormitórios de hospitais. De encontro à Lua, as hirtas galharias Estão paradas...
Mario Quintana – Maria
Que Linda estavas no dia Da Primeira Comunhão. Toda de branco, Maria, Com rosas brancas na mão. Nossa Senhora esquecia Ao ver-te, a sua aflição, E eu, contrito que heresia!...
Da vez primeira em que me assassinaram Perdi um jeito de sorrir que eu tinha… Depois, de cada vez que me mataram, Foram levando qualquer coisa minha… E hoje, dos...
Mario Quintana – Recordo ainda…
Recordo ainda… e nada mais me importa… Aqueles dias de uma luz tão mansa Que me deixavam, sempre, de lembrança, Algum brinquedo novo à minha porta… Mas veio um vento...
Mario Quintana – Tudo tão vago
Nossa Senhora Na beira do rio Lavando os paninhos Do bento filhinho São João estendia São José enxugava E o menino chorava Do frio que fazia Dorme criança Dorme meu...
Mario Quintana – O menino louco
Eu te paguei minha pesada moeda, Poesia… Ó teus espelhos deformantes e límpidos Como a água! Sim, desde menino, Meus olhos se abriam insones como flores no escuro Até que,...
Mario Quintana – O poema
Um poema como um gole d’água bebido no escuro. Como um pobre animal palpitando ferido. Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna. Um poema sem outra...
Mario Quintana – A casa fantasma
A casa está morta? Não: a casa é um fantasma, um fantasma que sonha com a sua porta de pesada aldrava, com os seus intermináveis corredores que saíam a explorar...
Poesia, a minha velha amiga… eu entrego-lhe tudo a que os outros não dão importância nenhuma… a saber: o silêncio dos velhos corredores uma esquina uma lua (porque há muitas,...
Mario Quintana – Ritmo
Na porta A varredeira varre o cisco varre o cisco varre o cisco Na pia a menininha escova os dentes escova os dentes escova os dentes No arroio a lavadeira...
Mario Quintana – Quando eu morrer
Quando eu morrer e no frescor de lua Da casa nova me quedar a sós, Deixai-me em paz na minha quieta rua… Nada mais quero com nenhum de vós! Quero...



