Eu vi as altas montanhas ficarem planas. E o mar não ter movimento e as cidades irem sendo teias de aranha. Por mais que houvesse, dos homens, gritos de amor...
Cecília Meireles
Cecilia Meireles – Dois
Daquele que antes ouvistes, vede o que volta: alguém que pisa no mundo tonto em seu grande tumulto de concha morta. Que rostos incompreensíveis, que sepultadas palavras aqui me esperam?...
Cecilia Meireles – Um
Agora podeis tratar-me como quiserdes: não sou feliz nem sou triste, humilde nem orgulhoso, – não sou terrestre. Agora sei que este corpo, insuficiente, em que assiste remota fala, mui...
Cecilia Meireles – Mar absoluto
Foi desde sempre o mar, E multidões passadas me empurravam como o barco esquecido. Agora recordo que falavam da revolta dos ventos, de linhos, de cordas, de ferros, de sereias...
Cecília Meireles – Gaita de lata
Se o amor ainda medrasse, aqui ficava contigo, pois gosto da tua face, desse teu riso de fonte, e do teu olhar antigo de estrela sem horizonte. Como, porém, já...
Cecilia Meireles – Conveniência
CONVÉM que o sonho tenha margens de nuvens rápidas e os pássaros não se expliquem, e os velhos andem pelo sol, e os amantes chorem, beijando-se, por algum infanticídio Convém...
Hoje desaprendo o que tinha aprendido até hoje e que amanhã recomeçarei a aprender. Todos os dias desfaleço e desfaço-me em cinza efêmera: todos os dias reconstruo minhas edificações, em...
Cecilia Meireles – Leveza
Leve é o pássaro: e a sua sombra voante, mais leve. E a cascata aérea de sua garganta, mais leve. E o que lembra, ouvindo-se deslizar seu canto, mais leve....
Foge por dentro da noite reaprende a ter pés e a caminhar, descruza os dedos, dilata a narina à brisa dos ciprestes, corre entre a luz e os mármores, vem...
Cecilia Meireles – Agitado
Os violinos choram, soturnos, Dentro da noite morta e triste, Elegias vãs de Noturnos… E nada existe… nada existe… Sombras. A câmara apagada… Sombras… Meu vulto é longe… ausente… Silencio…...
Esta é a dos cabelos louros e da roupinha encarnada, que eu via alimentar pombos, sentadinha numa escada. Seus cabelos foram negros, seus vestidos de outras cores, e alimentou, noutros...
Cecilia Meireles – Assovio
Ninguém abra a sua porta para ver que aconteceu: saímos de braço dado, a noite escura mais eu. Ela não sabe o meu rumo, eu não lhe pergunto o seu:...
A chuva chove mansamente… como um sono Que tranquilize, pacifique, resserene… A chuva chove mansamente… Que abandono! A chuva é a música de um poema de Verlaine… E vem-me o...
A ninguém preciso dizer adeus: todos têm suas ocupações, e estão longe, embebidos em seus enganos, que a felicidade imitam. A ninguém preciso dizer adeus: nenhum espaço formará lugar de...
Eu vi o raio de sol beijar o outono. Eu vi na mão dos adeuses o anel de ouro. Não quero dizer o dia. Não posso dizer o dono. Eu...


