José Paulo Paes

José Paulo Paes – Cigarra, Formiga & Cia

josé paulo paes

Cansadas dos seus papéis fabulares, a cigarra e a formiga
resolveram associar-se para reagir contra a estereotipia a que
haviam sido condenadas.

Deixando de parte atividades mais lucrativas, a formiga empresou
a cigarra. Gravou-lhe o canto em discos e saiu a vendê-los de
porta em porta. A aura de mecenas a redimiu para sempre do
antigo labéu de utilitarista sem entranhas.

Graças ao mecenato da formiga, a cigarra passou a ter comida e
moradia no inverno. Já ninguém a poderia acusar de imprevidência
boêmia.

O desfecho desta refábula não é róseo. A formiga foi expulsa do
formigueiro por lhe haver traído as tradições de pragmatismo à
outrance e a cigarra teve de suportar os olhares de desprezo com
que o comum das cigarras costuma fulminar a comercialização da
arte.

 

José Paulo Paes, Socráticas

Você gostou deste poema?

Você Pode Gostar Também

Sem comentários

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.