Cesário Verde

Cesário Verde – Setentrional

Talvez já te não lembres, triste Helena, 
Dos passeios que dávamos sozinhos, 
À tardinha, naquela terra amena, 
No tempo da colheita dos bons vinhos. 

Talvez já te não lembres, pesarosa, 
Da casinha caiada em que moramos, 
Nem do adro da ermida silenciosa, 
Onde nós tantas vezes conversamos. 

Talvez já te esquecesses, ó bonina, 
Que viveste no campo só comigo, 
Que te osculei a boca purpurina, 
E que fui o teu sol e o teu abrigo. 

Que fugiste comigo da Babel, 
Mulher como não há nem na Circássia, 
Que bebemos, nós dois, do mesmo fel, 
E regamos com prantos uma acácia. 

Talvez já te não lembres com desgosto 
Daquelas brancas noites de mistério, 
Em que a Lua sorria no teu rosto 
E nas lajes campais do cemitério. 

Talvez já se apagassem as miragens 
Do tempo em que eu vivia nos teus seios, 
Quando as aves cantando entre as ramagens 
O teu nome diziam nos gorjeios. 

Quando, à brisa outoniça, como um manto, 
Os teus cabelos de âmbar, desmanchados, 
Se prendiam nas folhas dum acanto, 
Ou nos bicos agrestes dos silvados. 

E eu ia desprendê-los, como um pajem 
Que a cauda solevasse aos teus vestidos, 
E ouvia murmurar à doce aragem 
Uns delírios de amor, entristecidos. 

Quando eu via, invejoso, mas sem queixas, 
Pousarem ‘borboletas doidejantes 
Nas tuas formosíssimas madeixas, 
Daquela cor das messes lourejantes. 

E no pomar, nós dois, ombro com ombro, 
Caminhávamos sós e de mãos dadas, 
Beijando os nossos rostos sem assombro, 
E colorindo as faces desbotadas. 

Quando Helena, bebíamos, curvados, 
As águas nos ribeiros remansosos, 
E, nas sombras, olhando os céus amados 
Contávamos os astros luminosos. 

Quando, uma noite, em êxtases caímos 
Ao sentir o chorar dalgumas fontes, 
E os cânticos das rãs que sobre os limos 
Quebravam a solidão dos altos montes. 

E assentados nos rudes escabelos, 
Sob os arcos de murta e sobre as relvas, 
Longamente sonhamos sonhos belos, 
Sentindo a fresquidão das verdes selvas. 

Quando ao nascer da aurora, unidos ambos 
Num amor grande como um mar sem praias 
Ouvíamos os meigos ditirambos 
Que os rouxinóis teciam nas olaias. 

E, afastados da aldeia e dos casais, 
Eu contigo, abraçado como as heras, 
Escondidos nas ondas dos trigais. 
Devolvia-te os beijos que me deras. 

Quando, se havia lama no caminho, 
Eu te levava ao colo sobre a greda, 
E o teu corpo nevado como arminho 
Pesava menos que um papel de seda. 

Talvez já te esquecesses dos poemetos, 
Revoltos como os bailes do Cassino, 
E daqueles byrônicos sonetos 
Que eu gravei no teu peito alabastrino. 

De tudo certamente te esqueceste, 
Porque tudo no mundo morre e muda, 
E agora és triste e só como um cipreste, 
E como a campa jazes fria e muda. 

Esqueceste-te, sim, meu sonho querido, 
Que o nosso belo e lúcido passado 
Foi um único abraço comprimido, 
Foi um beijo, por meses, prolongado. 

E foste sepultar-te, ó serafim, 
No claustro das Fiéis emparedadas, 
Escondeste o teu rosto de marfim 
No véu negro das freiras resignadas. 

E eu passo tão calado como a Morte 
Nesta velha cidade tão sombria, 
Chorando aflitamente a minha sorte 
E prelibando o cálix da agonia, 

E, tristíssima Helena, com verdade, 
Se pudera na terra achar suplícios, 
Eu também me faria gordo frade 
E cobriria a carne de cilícios. 

Cesário Verde, Livro de Cesário Verde

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