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Zetho Cunha Gonçalves

Zetho Cunha Gonçalves

Zetho Cunha Gonçalves – Os sonhos pedem cafuné

– Mãe,
sonhei com o deserto,
mas não vi passar a serpente.

– Meu filho,
se aquilo que sonhaste não chega
para encheres a barriga
ao teu desejo e ao teu sossego,
canta,
canta, com a voz voltada para o nascente,
enquanto lavras,
e lavras a força
e a dança do leopardo.

– Mãe,
sonhei com a floresta,
mas a floresta não tinha céu,
não crescia da Terra,
não tinha árvores nem capim.

– Meu filho,
se aquilo que sonhaste não presta,
joga tudo no fogo, pela manhã,
e diz:

“Bom dia,
ó Dia acabado de nascer,
bom dia!

Faz
com que os ancestrais
devorem todos os meus medos,
aceitem esta pequena labareda
e espantem dos nossos caminhos o Kapapa
e os Cazumbis!

Bom dia,
ó Dia acabado de nascer,
bom dia!”

– Mãe,
sonhei com o rio,
mas não vi a água que ele levava,
não sei se tinha peixe
ou jacaré.

– Meu filho,
se aquilo que sonhaste te deixou confuso,
lava-te na primeira água da chuva,
antes de te sentares na pedra,
com as mãos estendidas para o fogo,
à espera da noite.

– Mãe,
sonhei tanto, tanto,
esta noite!…

– Meu filho,
deita aqui a tua cabeça,
porque meus
são os prodígios e os teus dias,
que crescem,
crescem,
a encantar os horizontes,
iluminando
a tua altura de menino.
Deita,
deita aqui a tua cabeça,
meu filho.

Zetho Cunha Gonçalves, Rio sem margem

Zetho Cunha Gonçalves

Zetho Cunha Gonçalves – A minha companheira

[Tradição oral umbundu, Angola]

A minha companheira
nunca se molha,
nunca se queixa
do calor ou do frio.

Ambos comemos juntos
em todas as refeições.

Se lhe ofereço comida
ou se lhe ofereço de beber,
ela recusa

– porque não é capaz
de o fazer sozinha.

A minha companheira
segue-me sempre
e faz exatamente o que eu faço:

– se ando,
ela anda;
se paro,
ela para;
se me sento,
ela senta-se;
se me levanto,
ela levanta-se;
se me deito,
ela deita-se;
se falo,
ela fala

– mas ninguém ouve
o que ela diz

– a minha sombra.

 

Zetho Cunha Gonçalves, Rio sem margem