Na minha terra há uma estrada tão larga que vai de uma berma à outra. Feita tão de terra que parece que não foi construída. Simplesmente, descoberta. Estrada tão comprida...
Mia Couto
Mia Couto – Desilusão
Desiludido com o mundo, Afrânio concluiu: “uns são filhos da puta, outros só não o são porque a mãe é estéril” Decidido ao suicídio, no alto da falésia hesitou: “no...
Mia Couto – Estátua
Da abandonada estátua partilho o mineral destino: encherei de vazio a pedra, e manterei os olhos polidos pelos dejetos dos pássaros. Da poesia fiel discípulo serei: abrirei a boca apenas...
Mia Couto – Prematuros olhos
Muito antes de mim, os meus olhos andaram a despir o mundo. O que era roupa tombou num escuro abismo, desolada ave sob a chuva. E não era roupa, era...
Mia Couto – Árvore
Onde os frutos maduram: sal e sol em minhas veias, luz e mel em boca alheia. Onde plantei a alta acácia das febres eu mesmo me deitei, para ser a...
Mia Couto – Doença
O médico serenou Juca Poeira. Que ele já não padecia da doença que ali o trouxera em tempos. E o doutor disse o nome da falecida enfermidade: “Arritmia paroxística supraventricular”...
Mia Couto – O Pecador do rio
Na igreja, Rosarinho se confessou: engravidei do rio, senhor padre. Com gesto de água arredondou o ventre. O padre se enrugou: ela que não usasse desculpa para os seus mortais...
Mia Couto – A adiada enchente
Velho, não. Entardecido, talvez. Antigo, sim. Me tornei antigo porque a vida, tantas vezes, se demorou. E eu a esperei como um rio aguarda a cheia. Gravidez de fúrias e...
Mia Couto – A lentidão da sede
A chegada dos bois ao bebedouro me ensina a espera, o tempo da água no corpo da terra. O boi não precisa que o sonhem. O boi bebe e os...
Mia Couto – O amor, meu amor
Nosso amor é impuro como impura é a luz e a água e tudo quanto nasce e vive além do tempo. Minhas pernas são água, as tuas são luz e...
Mia Couto – Tardio
Quando quis ser fruto fui fome, não mais do que areia de um chão sem cio. Quando sonhei ser pano fui agulha. E morri no sono do gesto de enrolar...
Mia Couto – Rosa
Não ascendo a rosa. Fico por espinho, crosta, remorso. Lição do gesto de quem retira a mão, gotejando sangue, em castigo de querer possuir a beleza da flor. Me sufoca...
Mia Couto – O espelho
Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me, a sós, perplexo, com meu súbito reflexo....
Mia Couto – A primeira vez da idade
A vez que tive mais idade foi aos cinco anos. Meu pai, com solenidade que eu desconhecia, perante seus superiores hierárquicos, apontou e disse: — Este é meu filho! E...
Mia Couto – A luz da dor
O meu modo de saber é adoecendo. A uns, a ideia surge em luz. A mim, se declara uma pontada no peito. O advento da dor, o deflagrar da súbita...

