Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa,...
Ferreira Gullar
Ferreira Gullar – As peras
As peras, no prato, apodrecem. O relógio, sobre elas, mede a sua morte? Paremos o pêndulo. Deteríamos, assim, a morte das frutas? Oh as peras cansaram-se de suas formas e...
Ferreira Gullar – Despedida
Eu deixarei o mundo com fúria. Não importa o que aparentemente aconteça, se docemente me retiro. De fato nesse momento estarão de mim se arrebentando raízes tão fundas quanto estes...
Ferreira Gullar – O Anjo
O anjo, contido em pedra e silêncio, me esperava. Olho-o, identifico-o tal se em profundo sigilo de mim o procurasse desde o início. Me ilumino! todo o existido fora apenas...
Ferreira Gullar – Mar Azul
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Ferreira Gullar – Fora da luz
Derrubado em seu corpo na trevosa boca doce da carne que o engole como um sexo, dorme. E é lume o sono que em vão se queima pelas torres jovens...
Vagueio campos noturnos Muros soturnos paredes de solidão sufocam minha canção A canção repousa o braço no meu ombro escasso: firmam‑se no coração meu passo e minha canção Me perco...
Nada vos oferto além destas mortes de que me alimento Caminhos não há Mas os pés na grama os inventarão Aqui se inicia uma viagem clara para a encantação Fonte,...
Prometi‑me possuí‑la muito embora ela me redimisse ou me cegasse. Busquei‑a nas catástrofes, da aurora, e na fonte e no muro onde sua face, entre a alucinação e a paz...
Calco sob os pés sórdidos o mito que os céus segura — e sobre um caos me assento. Piso a manhã caída no cimento como flor violentada. Anjo maldito, (pretendi...
Neste leito de ausência em que me esqueço desperta um longo rio solitário: se ele cresce de mim, se dele cresço, mal sabe o coração desnecessário. O rio corre e...
Quatro muros de cal, pedra soturna, e o silêncio a medrar musgos, na interna face, põe ramas sobre a flor diuturna: tudo que é canto morre à face externa, que...
Fluo obscuro de mim, enquanto a rosa se entrega ao mundo, estrela tranquila. Nada sei do que sofro. O mesmo tempo que em mim é frustração, nela cintila. E...
Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a árvore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar No povo meu...

