No azul do céu de metileno a lua irônica diurética é uma gravura de sala de jantar. Anjos da guarda em expedição noturna velam sonos púberes espantando mosquitos de cortinados...
Carlos Drummond de Andrade
Amor meu, minhas penas, meu delírio, aonde quer que vás, irá contigo meu corpo, mais que um corpo, irá um’alma, sabendo embora ser perdido intento o de cingir-se forte de...
Precisamos descobrir o Brasil! Escondido atrás das florestas, com a água dos rios no meio, o Brasil está dormindo, coitado. Precisamos colonizar o Brasil. O que faremos importando francesas muito...
Três meninos e duas meninas, sendo uma ainda de colo. A cozinheira preta, a copeira mulata, o papagaio, o gato, o cachorro, as galinhas gordas no palmo de horta e...
Sofrer é outro nome do ato de viver. Não há literatura que dome a onça escura. Amar, nome-programa de muito procurar. Mas quem afirma que eu sei o reflexo meu?...
Espírito de Minas, me visita, e sobre a confusão desta cidade, onde voz e buzina se confundem, lança teu claro raio ordenador. Conserva em mim ao menos a metade do...
Velhos amores incompletos no gelo seco do passado, velhos furores demenciais esmigalhados no mutismo de demônios crepusculares, velhas traições a doer sempre na anestesia do presente, velhas jogadas de prazer...
Ficou o nome no tempero da comida, nas fibras da carne na saliva, no ouro da mina ficou o nome. Ó nome desleal que me escavacas qual se fosses punhal...
Claro que o corpo não é feito só para sofrer, mas para sofrer e gozar. Na inocência do sofrimento como na inocência do gozo, o corpo se realiza, vulnerável e...
Fortuna, ó Glória, se evapora, e a glória se esvanece, Glória. Não assim o cisco da hora — nossa —, que desdenhou a História. Há de restar, Glória — ossatura...
O gato dorme a tarde inteira no jardim. Sonha (?) tigres enviesados a chamá-lo para a fraternidade no jardim. Gato sonhando, talvez sonho de homem? Continua dormindo, enquanto ignoro...
Como fazer feliz meu filho? Não há receitas para tal. Todo o saber, todo o meu brilho de vaidoso intelectual vacila ante a interrogação gravada em mim, impressa no ar....
Ó minh’alma, dá o salto mortal e desaparece na bruma, sem pesar! Sem pesar de ter existido e não ter saboreado o inexistível. Quem sabe um dia o alcançarás, alma...
Se gostasses de mim, ai, se gostasses, se gostasses de mim — serenim — era tudo alecrim. Se gostasses de mim — mirandolim — eu morria. Morria? de gozo no...
Em torno de um bordão organiza-se o espírito. O bordão, seu poder e sua circunstância. Nada ocorre de belo, nada ocorre de mal fora da sonoridade do bordão. Repetir é...





