Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade – Sonetos heredianos

carlos drummond de andrade
image_pdfimage_print

I

Era bom traduzir os sonetos de Herédia
a poder de martelo, altas horas da noite.
No suplício da forma um sabor de comédia
testará o animal que na treva se acoite.
O desfecho (in)feliz envolve-se na média
de galas esmagadas. Qualquer um que se afoite
nos meandros do mot há de soltar as rédeas
ao cavalo interior, carente de pernoite.
A língua, inda sangrando em cacos de palavras
que jamais tornarão à virtude primeira,
pergunta (ou quase que), após servido o chá.
E o bardo, recalcando aporias escravas,
silente se recolhe à furna derradeira.
Ninguém que responda: Herédia ou Herediá?

II

A concha de Heredia encanta e contagia
o brasílio Parnaso. O verbo alexandrino
reluz em facho de ouro, e a noite se faz dia
por artes do cantor e seu sabor ladino.
Ingrato, o nosso idioma, e por isso mais fino
o triunfo verbal que ao público extasia:
vulva frêle et navrée, num lance cristalino,
expõe-se, esplendorosa, em sua plena magia.
Palmas ao tradutor, esforçado xavante,
guarani culto e sábio ou famoso tupi,
mestre no deglutir, em quarteto e terceto,
o sol, o sal, a cor que iguais eu nunca vi,
embora o nosso herói se confesse ofegante
depois de haver parido um alheio soneto.

Carlos Drummond de Andrade, Amar se aprende amando

Gostou deste poema?

Siga o Tudo é Poema e receba novos poemas todo dia.

@tudoepoema ↗

Você gostou deste poema?

You Might Also Like

No Comments

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.