Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade – Pacto

Que união floral existe
entre as mulheres e Di Cavalcanti?
Se o que há nelas de fero ou triste
a ele se entrega, confiante?

Que chave lhe deram, em São Cristóvão,
para abrir a porta dos olhos,
— e no labirinto escuro se acendem
lumes de paixão, ignotos?

Quem lhe soprou a ciência plástica
de resumir em cor o travo
das mais ácidas, o mel intenso
das suburbanas, o peso imenso
de corpos que sonham dar-se?

E o que ele aprendeu do corpo
sem alma, porque toda a alma,
como uma víbora calma,
coleia na pele do rosto?

E essa pegajosa linguagem
de desejo a surdir da gruta,
e esse suspiro, ai Deus, telúrico,
de sangue moreno-sulfúrico?

É o Rio que, feito rio
de vivências, lhe flui nas tintas
de um calor pedindo nudez?
O engenho de cana avoengo,
a mastigar doçuras de vez?

São os instintos em grinalda,
num movimento lento e grave,
tão majestoso que a pintura antiga
explode nos jogos modernos
da angústia?

Tudo é pergunta, na criação,
e tudo canta, é boca,
no belveder dos sessenta anos,
entre nuvens escravas.
Multiamante,
Di Cavalcanti fez pacto com a mulher.

Carlos Drummond de Andrade, A vida passada a limpo

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