Estou tão velha,
corte-me as unhas.
Estou tão velha,
escove-me os dentes.
Cubra-me, temo estar despida.
Cansada já, aos quinze minutos do segundo mistério.
Cochila e deixa cair o terço
que reza para que eu nasça forte
e vire uma santa de peso.
Ó mãe, mãezinha, minha querida,
santa é a senhora,
que não tem culpa de nada.
Os fetos já sabem tudo.
Adélia Prado, O jardim das Oliveiras
Sobre Adélia Prado e “A Recitação do rosário”
Uma poeta do sagrado e do cotidiano
Adélia Prado nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, em 1935. Por isso, carrega em sua poesia toda a densidade do interior brasileiro — o sagrado, o cotidiano e o corpo convivendo na mesma frase. Além disso, ela chegou tarde à literatura. Seu primeiro livro, Bagagem, foi publicado quando tinha quarenta anos. No entanto, esse atraso não diminuiu sua força. Ao contrário, a tornou uma das vozes mais originais da poesia brasileira contemporânea.
Sua obra mistura fé católica e experiência feminina com uma franqueza que surpreende. Dessa forma, Adélia Prado não separa o espiritual do carnal — para ela, ambos habitam o mesmo lugar. Por isso, seus poemas têm a textura da vida vivida, não da vida imaginada.
O que o poema nos diz
Em “A Recitação do rosário”, o eu lírico fala da vulnerabilidade do corpo que envelhece. Assim, pede que o cubram, que cortem suas unhas, que escovem seus dentes. No entanto, o poema não é apenas sobre velhice. É, portanto, sobre dependência e sobre a figura materna — aquela que cuida sem culpa, que reza pelo nascimento de algo forte. Da mesma forma, os fetos que já sabem tudo sugerem que a vida traz seu peso desde antes de começar.
O poema pertence a O jardim das Oliveiras, obra publicada em 1980. Ademais, Adélia Prado é autora de títulos como Cacos para um vitral, A faca no peito e Miserere. Mesmo assim, sua voz continua sendo reconhecida pela mistura única de graça e brutalidade — a marca que faz de cada poema seu um evento singular.

