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poesia contemporânea

Charles Simic

Charles Simic – Descrição de algo perdido

Charles Charles Simic, poeta americano, autor de Descrição de algo perdido

Nunca teve um nome
E não me lembro de como o encontrei.
Carregava-o no bolso
Como um botão perdido
Exceto por não ser um botão.

Filmes de terror
Lanchonetes 24 horas,
Botequins escuros
E casas de bilhar
Em ruas molhadas de chuva.

Levava uma existência quieta, inexpressiva,
Como uma sombra em um sonho,
Um anjo num alfinete,
E então sumiu.
Os anos passaram com sua fila
De estações sem nome,
Até que alguém anunciou é aqui!
E tolo que eu era
Desembarquei na plataforma vazia
Sem nenhuma cidade à vista.

Charles Simic, Meu anjo da guarda tem medo do escuro – Tradução, Ricardo Rizzo

Sobre Charles Simic e “Descrição de algo perdido”

Charles Simic nasceu em Belgrado, em 1938. Desde criança, viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial. Por isso, ainda adolescente, emigrou para os Estados Unidos. Foi assim que encontrou, na língua inglesa, sua voz poética. Simic era um poeta dos objetos simples. Pedras, colheres, botões — em suas mãos, essas coisas ganhavam peso e mistério. Além disso, ele transformava
o silêncio em imagem e a perda em beleza.

Em “Descrição de algo perdido”, o eu lírico carrega algo sem nome no bolso. Esse objeto nunca é revelado. No entanto, sua ausência é justamente o centro do poema. As lanchonetes, os botequins e as ruas molhadas não são apenas cenário. São, portanto, estados de alma de quem perdeu algo que não consegue nomear. Da mesma forma, os anos que passam no poema não são cronologia — são esquecimento.

Charles Simic ganhou o Prêmio Pulitzer de Poesia em 1990. Ademais, foi Poeta Laureado dos Estados Unidos entre 2007 e 2008. Faleceu em janeiro de 2023. Mesmo assim, sua obra continua viva — e continua perguntando, em voz baixa, o que carregamos no bolso sem saber.

Adélia Prado

Adélia Prado – A Recitação do rosário

Adélia Prado, poeta brasileira, autora de A Recitação do rosário

Estou tão velha,
corte-me as unhas.
Estou tão velha,
escove-me os dentes.
Cubra-me, temo estar despida.
Cansada já, aos quinze minutos do segundo mistério.
Cochila e deixa cair o terço
que reza para que eu nasça forte
e vire uma santa de peso.
Ó mãe, mãezinha, minha querida,
santa é a senhora,
que não tem culpa de nada.
Os fetos já sabem tudo.

Adélia Prado, O jardim das Oliveiras

Sobre Adélia Prado e “A Recitação do rosário”

Uma poeta do sagrado e do cotidiano

Adélia Prado nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, em 1935. Por isso, carrega em sua poesia toda a densidade do interior brasileiro — o sagrado, o cotidiano e o corpo convivendo na mesma frase. Além disso, ela chegou tarde à literatura. Seu primeiro livro, Bagagem, foi publicado quando tinha quarenta anos. No entanto, esse atraso não diminuiu sua força. Ao contrário, a tornou uma das vozes mais originais da poesia brasileira contemporânea.

Sua obra mistura fé católica e experiência feminina com uma franqueza que surpreende. Dessa forma, Adélia Prado não separa o espiritual do carnal — para ela, ambos habitam o mesmo lugar. Por isso, seus poemas têm a textura da vida vivida, não da vida imaginada.

O que o poema nos diz

Em “A Recitação do rosário”, o eu lírico fala da vulnerabilidade do corpo que envelhece. Assim, pede que o cubram, que cortem suas unhas, que escovem seus dentes. No entanto, o poema não é apenas sobre velhice. É, portanto, sobre dependência e sobre a figura materna — aquela que cuida sem culpa, que reza pelo nascimento de algo forte. Da mesma forma, os fetos que já sabem tudo sugerem que a vida traz seu peso desde antes de começar.

O poema pertence a O jardim das Oliveiras, obra publicada em 1980. Ademais, Adélia Prado é autora de títulos como Cacos para um vitral, A faca no peito e Miserere. Mesmo assim, sua voz continua sendo reconhecida pela mistura única de graça e brutalidade — a marca que faz de cada poema seu um evento singular.

Antonio Cicero

Antonio Cícero – Blackout

Antonio Cícero, poeta e letrista brasileiro, autor de Blackout

Passo a noite a escrever.
Do lado de lá da rua poderia alguém me ver,
daquele prédio às escuras, em frente ao meu, e mais alto.
Que voyeur me espiaria?
De interessante, só faço escrever.
Ele veria decerto a parte traseira do computador;
talvez, daquela outra janela, avistasse, de viés,
o lado esquerdo da minha face de perfil;
jamais entretanto enxergaria certos versos de cristal líquido
que, mal secreto com o sal do meu suor,
já anunciam segredos só meus e de algum leitor
que partilhará comigo o paraíso e o desterro,
o pranto que vem do riso, o acerto que vem do erro.
Disso tudo, meu vizinho nem de longe desconfia.
Mas e se ele, tendo lido meus lábios,
que pronunciam o que na tela está escrito,
perceber-se desterrado não só do meu paraíso:
do meu desterro, coitado?
E se ele a tudo atentar e por inveja e recalque
me der um tiro de lá?
Melhor fechar o blackout.

Antonio Cícero, Fullgás, Poesia reunida

Sobre Antonio Cícero e “Blackout”

Antonio Cícero Blackout é um dos poemas mais instigantes de Fullgás, Poesia reunida. Por isso, merece atenção especial: nele, Antonio Cícero transforma o ato de escrever numa cena de tensão e humor. Além disso, o poema revela muito sobre a poética desse autor — sua ironia, sua lucidez e seu amor pelo paradoxo.

Antonio Cícero: um poeta entre a filosofia e a canção

Antonio Cícero nasceu no Rio de Janeiro, em 1945. Dessa forma, cresceu no centro de uma das culturas mais ricas do país. Além disso, formou-se em filosofia, o que marcou profundamente sua escrita. Por isso, sua poesia pensa sem perder o encantamento — e encanta sem perder o rigor.

É também um dos grandes letristas da MPB. No entanto, sua poesia vai além das canções. Portanto, em livros como Guardar e Fullgás, Antonio Cícero constrói um universo onde forma e conteúdo se completam. Você pode conhecer mais sobre sua obra em Guardar e em Alguns versos, também publicados aqui no Tudo é Poema.

Antonio Cícero Blackout: o segredo da escrita exposto

Em “Blackout”, o eu lírico escreve sozinho à noite. No entanto, percebe que pode ser observado de um prédio escuro do outro lado da rua. Assim, surge a tensão central do poema: o segredo da escrita e o risco da exposição. Da mesma forma, o vizinho imaginado não acessa apenas a cena — acessa o que ela representa. Por isso, a solução final é ao mesmo tempo cômica e filosófica: fechar o blackout.

O poema pertence a Fullgás, Poesia reunida. Ademais, Antonio Cícero é referência na poesia brasileira contemporânea. Mesmo assim, sua escrita permanece acessível. Conheça também o poema Templo, outro exemplo dessa poesia que une profundidade e leveza.

Thelma Miguel

Thelma Miguel – Poeta sem voz

Thelma Miguel, poeta brasileira, autora de Poeta sem voz

por que fui nascer poeta?
as palavras me engasgam
prendem na garganta
falta o ar
não embelezam meu dia
não hoje
não neste dia
a vida de poeta
me embaralha nas letras
fico perdida nas emoções
nas curvas da vida
porque o poeta
sente forte o que vê
às vezes enlouquece
quando as palavras perdidas
pelo corpo
engessam a alma
o poeta se desespera
quando o silêncio
vence o grito
e ele não consegue
pôr no papel
aquilo que em sua alma
sangra
o poeta enlouquece
quando uma página branca
atravessa o seu dia
os rabiscos ficam vazios
sem nexo
ele risca
rabisca em vão
e não consegue
que sua alma se esparrame
tempos sombrios
para o poeta que se delicia com a beleza
com a suavidade da alma
hoje um martelo crava
em seu peito uma estaca
e ele não consegue respirar
de dor
as palavras perderam o caminho da boca
ficam embrulhadas no meio do estômago
não sai uma só palavra
só restou um vazio
oco
no meio dos lábios

Thelma Miguel, O silêncio e o grito

Sobre Thelma Miguel e “Poeta sem voz”

Thelma Miguel poeta sem voz é um dos poemas mais corajosos de O silêncio e o grito. Por isso, merece atenção especial. Além disso, nele a poeta escreve sobre a impossibilidade de escrever. Consequentemente, o poema revela uma tensão que todo criador já sentiu. Da mesma forma, quem nunca escreveu poesia também reconhece esse vazio.

Thelma Miguel: a poeta que escreve sobre o silêncio

Thelma Miguel é poeta brasileira contemporânea. Por isso, sua escrita carrega uma honestidade rara. Além disso, ela não escreve sobre o que é belo, mas sobre o que é verdadeiro. Dessa forma, seus poemas falam diretamente à experiência de quem cria. No entanto, essa dureza é também sua maior força. Por outro lado, sua linguagem é simples e acessível. Portanto, alcança leitores que não se identificam com a poesia clássica. Ademais, quem a lê reconhece nas palavras algo que já viveu. Consequentemente, ela ocupa um lugar singular na literatura brasileira. Ainda assim, sua obra é pouco conhecida fora dos círculos literários. Por isso, publicar e divulgar sua poesia é um ato necessário.

Thelma Miguel poeta sem voz: quando o silêncio vence o grito

Em “Poeta sem voz”, o eu lírico questiona sua própria natureza. Assim, a pergunta inicial não é retórica. Por isso, é um desabafo real e urgente. No entanto, o poema não é derrotista. Da mesma forma que o silêncio pode vencer o grito, o grito pode romper o silêncio. Além disso, o próprio poema é prova dessa ruptura. Portanto, escrever sobre não conseguir escrever também é escrever.

Os versos finais são os mais contundentes. Ademais, a imagem do vazio oco no meio dos lábios resume com precisão o bloqueio criativo. Mesmo assim, o fato de o poema existir já é uma vitória. Por isso, as palavras encontraram o caminho de volta. Consequentemente, Thelma Miguel nos lembra que a voz do poeta nunca some de verdade — apenas espera.