Browsing Tag

poesia carioca

Antonio Cicero

Antonio Cícero – Blackout

Antonio Cícero, poeta e letrista brasileiro, autor de Blackout

Passo a noite a escrever.
Do lado de lá da rua poderia alguém me ver,
daquele prédio às escuras, em frente ao meu, e mais alto.
Que voyeur me espiaria?
De interessante, só faço escrever.
Ele veria decerto a parte traseira do computador;
talvez, daquela outra janela, avistasse, de viés,
o lado esquerdo da minha face de perfil;
jamais entretanto enxergaria certos versos de cristal líquido
que, mal secreto com o sal do meu suor,
já anunciam segredos só meus e de algum leitor
que partilhará comigo o paraíso e o desterro,
o pranto que vem do riso, o acerto que vem do erro.
Disso tudo, meu vizinho nem de longe desconfia.
Mas e se ele, tendo lido meus lábios,
que pronunciam o que na tela está escrito,
perceber-se desterrado não só do meu paraíso:
do meu desterro, coitado?
E se ele a tudo atentar e por inveja e recalque
me der um tiro de lá?
Melhor fechar o blackout.

Antonio Cícero, Fullgás, Poesia reunida

Sobre Antonio Cícero e “Blackout”

Antonio Cícero Blackout é um dos poemas mais instigantes de Fullgás, Poesia reunida. Por isso, merece atenção especial: nele, Antonio Cícero transforma o ato de escrever numa cena de tensão e humor. Além disso, o poema revela muito sobre a poética desse autor — sua ironia, sua lucidez e seu amor pelo paradoxo.

Antonio Cícero: um poeta entre a filosofia e a canção

Antonio Cícero nasceu no Rio de Janeiro, em 1945. Dessa forma, cresceu no centro de uma das culturas mais ricas do país. Além disso, formou-se em filosofia, o que marcou profundamente sua escrita. Por isso, sua poesia pensa sem perder o encantamento — e encanta sem perder o rigor.

É também um dos grandes letristas da MPB. No entanto, sua poesia vai além das canções. Portanto, em livros como Guardar e Fullgás, Antonio Cícero constrói um universo onde forma e conteúdo se completam. Você pode conhecer mais sobre sua obra em Guardar e em Alguns versos, também publicados aqui no Tudo é Poema.

Antonio Cícero Blackout: o segredo da escrita exposto

Em “Blackout”, o eu lírico escreve sozinho à noite. No entanto, percebe que pode ser observado de um prédio escuro do outro lado da rua. Assim, surge a tensão central do poema: o segredo da escrita e o risco da exposição. Da mesma forma, o vizinho imaginado não acessa apenas a cena — acessa o que ela representa. Por isso, a solução final é ao mesmo tempo cômica e filosófica: fechar o blackout.

O poema pertence a Fullgás, Poesia reunida. Ademais, Antonio Cícero é referência na poesia brasileira contemporânea. Mesmo assim, sua escrita permanece acessível. Conheça também o poema Templo, outro exemplo dessa poesia que une profundidade e leveza.

Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes – Ternura

Vinicius de Moraes, poeta e letrista brasileiro, autor de Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma…
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.

Vinicius de Moraes, Pela luz dos olhos teus

Sobre Vinicius de Moraes e “Ternura”

Vinicius de Moraes Ternura é um dos poemas mais delicados de toda a sua obra. Por isso, merece atenção especial — nele, o poetinha pede perdão por amar. Além disso, o poema revela o que há de mais genuíno em sua poética: o amor como entrega total, sem exaspero e sem promessas vazias.

Vinicius de Moraes: o poetinha do amor

Vinicius de Moraes nasceu no Rio de Janeiro, em 1913. Por isso, carrega em sua obra toda a musicalidade e sensualidade carioca. Além disso, foi diplomata, jornalista e um dos maiores letristas da MPB. Dessa forma, sua poesia transita com facilidade entre o lírico e o musical — entre a página e a canção.

É o autor de A Felicidade, Garota de Ipanema e Eu sei que vou te amar. No entanto, sua poesia vai muito além das músicas. Portanto, em livros como Pela luz dos olhos teus, Vinicius constrói um universo amoroso de rara delicadeza. Você pode conhecer mais sobre sua obra em outros poemas de Vinicius de Moraes aqui no Tudo é Poema.

Vinicius de Moraes Ternura: o amor que pede perdão

Em “Ternura”, o eu lírico não declara o amor com euforia. Ao contrário, pede perdão por amar de repente. Assim, o poema começa com uma confissão incomum — a de quem sente demais e se desculpa por isso. No entanto, essa humildade é, portanto, a maior demonstração de afeto.

Os versos finais são os mais memoráveis. Da mesma forma que a noite cede à aurora, o amor descrito por Vinicius é suave e inevitável. Por isso, “Ternura” permanece atual — porque fala de um sentimento que não envelhece. Ademais, Vinicius de Moraes faleceu em 1980, mas sua obra continua sendo uma das mais lidas e amadas da literatura brasileira.