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poesia brasileira

Sérgio Vaz

Sergio Vaz – Porém

Sérgio Vaz - poema Porém - livro Colecionador de Pedras

Queria ter vivido melhor,
porém a mediocridade sempre me foi farta
e generosa nos caminhos que escolhi para viver.
Queria ter sido mais alegre,
porém a tristeza sempre foi companheira fiel
nos dias intermináveis de abandono.
Queria ter amado mais as pessoas que conheci
ou que fingi conhecer,
porém, na maioria das vezes,
eu também não me conhecia.
Queria ter andado mais livre,
porém, algemado à ignorância, perdi muito
tempo tentando voar sem sequer saber andar.
Queria ter lido mais livros,
porém, analfabeto de ousadia, passei
muitos anos enxergando pelos olhos
adormecidos de outras pessoas.
Também queria ter escritos mais poemas
do que bilhetes pedindo desculpas,
porém as palavras sempre me vieram
como culpa e quase nunca como estrelas.
Queria ter roubado mais beijos e abraços
das meninas que andavam desprotegidas, protegidas pela magia da infância,
porém cresci muito cedo e a timidez sempre
me foi uma lei muito severa a ser cumprida.
Queria ter pensado menos no futuro,
porém o passado simples
nunca foi o melhor presente
e a eternidade sempre me pareceu coisa de gente
que tem preguiça de viver. Queria ter sido um homem mais humilde,
porém a vaidade e a ganância sempre
me cercaram de mimos e coisas que até hoje
não sei pra que serviram.
Queria ter pregado mais a paz,
porém, como um covarde, gastei muita munição
tentando atingir amigos e desconhecidos
que não usavam coletes à prova de balas
nem blindados no coração.
Queria ter sido mais forte,
porém rir dos vencidos e bajular os mais ricos
sempre me pareceu o caminho mais curto
para o esconderijo secreto das minhas fraquezas.
Queria ter dito mais a verdade,
porém a mentira sempre foi moeda de troca
para comprar o respeito e a admiração
das pessoas fúteis de almas vazias.
Queria que o mundo fosse mais justo,
porém, avarento de nascença, fui o primeiro
a esconder o sol na palma da mão,
antes que o vizinho o fizesse,
e mesquinho por vocação
escondi as noites com lua
para que os poetas não a cortejassem.
Queria ter dito mais besteiras,
porém fui desses idiotas amantes
das proparoxítonas e sujeito oculto
nos bate­-papos de botecos de esquinas,
onde a vida não acontece por decreto.
Queria ter colhido mais flores,
porém o medo de espinhos
afugentou a primavera e,
outono que sempre fui,
plantei inverno quando a terra pedia verão.
Hoje, queria ter acordado mais cedo,
porém temo que, pra mim,
seja tarde demais.

Sergio Vaz, Colecionador de pedras

Sérgio Vaz: o poeta que transformou a periferia em literatura

Sérgio Vaz nasceu em Sítio do Mato, na Bahia, em 1964. Ainda criança, mudou-se para São Paulo, onde cresceu na periferia da capital. Hoje é um dos principais nomes da literatura marginal brasileira. Entre suas conquistas está a fundação da Cooperifa, cooperativa cultural que levou a poesia para dentro das comunidades. Origem, luta e identidade atravessam toda a sua obra. Nada nela soa como queixa — tudo soa como afirmação. Colecionador de Pedras, um dos seus livros, é a fonte do poema “Porém”.

Porém, de Sérgio Vaz: o que se quis e o que se viveu

A voz poética, neste texto, revisita o próprio passado. Cada verso parte de um desejo e desemboca em uma contradição. Mais do que arrependimento, há autoconhecimento. Repetindo a estrutura “queria ter… porém”, o poema cria um ritmo de confissão. Sem se vitimizar, o eu lírico expõe fraquezas, medos e escolhas equivocadas. Covardia, vaidade e medo aparecem como parte legítima de sua trajetória. No verso final, sobre acordar mais cedo — talvez tarde demais —, não há solução, apenas urgência. No fundo, trata-se de um exercício de honestidade brutal com a própria história.

Lya Luft

Lya Luft – Canção Romântica

canção romântica Lya Luft poetisa brasileira

Quando eu morrer (antes de ti) não sei se ainda
vou sentir a tua mão na minha, o fogo
da tua vida fundido com o meu.
Mesmo assim, estejas tu distante numa rota alheia,
sei que estarás comigo nesse instante,
mão na mão, boca na boca, colhendo,
não um último suspiro, mas um beijo
inaugural, a selar esse destino nosso:
livres das coisas banais e das humanas tramas,
seremos, por isso mesmo, imortais.

Lya Luft, Secreta Mirada

Lya Luft: a poetisa que transformou dor em beleza

Nascida em Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, em 15 de setembro de 1938, Lya Luft foi escritora, poetisa e tradutora. Professora universitária de linguística e literatura, construiu uma das carreiras mais ricas das letras brasileiras. Sua obra percorre romances, poemas e ensaios com a mesma intensidade. A dor, o amor, a perda e a morte aparecem em seus textos não como tragédia, mas como matéria de vida. Lya Luft faleceu em Porto Alegre, em 30 de dezembro de 2021, aos 83 anos.

Canção Romântica Lya Luft: o amor que vence a morte

Neste poema, a voz poética fala diretamente ao ser amado. A morte não é o fim. É o instante em que tudo se completa. A imagem central é poderosa: não um último suspiro, mas um beijo inaugural. A morte inaugura algo maior do que a vida permite.
As mãos e a boca fundidas atravessam o corpo e o tempo. O amor permanece além de ambos. Por fim, o verso — seremos, por isso mesmo, imortais — não soa como consolo. Soa como certeza. Livres das coisas banais, os dois se tornam eternos. Esta canção romântica de Lya Luft é, no fundo, uma poesia sobre imortalidade.

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira – Desesperança

Manuel Bandeira, poeta brasileiro, autor do poema Desesperança

Esta manhã tem a tristeza de um crepúsculo.
Como dói um pesar em cada pensamento!
Ah, que penosa lassidão em cada músculo…
O silêncio é tão largo, é tão longo, é tão lento
Que dá medo… O ar, parado, incomoda, angustia…
Dir-se-ia que anda no ar um mau pressentimento.
Assim deverá ser a natureza um dia,
Quando a vida acabar e, astro apagado, a Terra
Rodar sobre si mesma estéril e vazia.
O demônio sutil das nevroses enterra
A sua agulha de aço em meu crânio doído.
Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra…
Minha respiração se faz como um gemido.
Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.
Por onde alongue o meu olhar de moribundo,
Tudo a meus olhos toma um doloroso aspeto:
E erro assim repelido e estrangeiro no mundo.
Vejo nele a feição fria de um desafeto.
Temo a monotonia e apreendo a mudança.
Sinto que a minha vida é sem fim, sem objeto…
– Ah, como dói viver quando falta a esperança!

Manuel Bandeira, A cinza das horas

Sobre Manuel Bandeira e “Desesperança”

“Desesperança” é um poema de Manuel Bandeira escrito em 1912. Foi publicado em A Cinza das Horas, seu livro de estreia. Nele, o poeta descreve o peso da melancolia e o pressentimento da morte. As imagens vão do crânio doído à Terra girando estéril no espaço.

Manuel Bandeira: o poeta da dor e da leveza

Manuel Bandeira nasceu em Recife, em 1886. Foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Diagnosticado com tuberculose ainda jovem, conviveu por décadas com a perspectiva da morte. Isso marcou profundamente sua poesia. A Cinza das Horas reflete esse período de reclusão e angústia. Mais tarde, Bandeira se tornaria um dos pioneiros do Modernismo brasileiro.

“Desesperança”: a dor de viver sem sentido

No poema, o eu lírico acorda com a sensação de que o mundo perdeu o sentido. A manhã parece um crepúsculo. O silêncio oprime. A morte chama. O verso final resume o tema central: a existência como fardo quando a esperança desaparece.

Adélia Prado

Adélia Prado – A Recitação do rosário

Adélia Prado, poeta brasileira, autora de A Recitação do rosário

Estou tão velha,
corte-me as unhas.
Estou tão velha,
escove-me os dentes.
Cubra-me, temo estar despida.
Cansada já, aos quinze minutos do segundo mistério.
Cochila e deixa cair o terço
que reza para que eu nasça forte
e vire uma santa de peso.
Ó mãe, mãezinha, minha querida,
santa é a senhora,
que não tem culpa de nada.
Os fetos já sabem tudo.

Adélia Prado, O jardim das Oliveiras

Sobre Adélia Prado e “A Recitação do rosário”

Uma poeta do sagrado e do cotidiano

Adélia Prado nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, em 1935. Por isso, carrega em sua poesia toda a densidade do interior brasileiro — o sagrado, o cotidiano e o corpo convivendo na mesma frase. Além disso, ela chegou tarde à literatura. Seu primeiro livro, Bagagem, foi publicado quando tinha quarenta anos. No entanto, esse atraso não diminuiu sua força. Ao contrário, a tornou uma das vozes mais originais da poesia brasileira contemporânea.

Sua obra mistura fé católica e experiência feminina com uma franqueza que surpreende. Dessa forma, Adélia Prado não separa o espiritual do carnal — para ela, ambos habitam o mesmo lugar. Por isso, seus poemas têm a textura da vida vivida, não da vida imaginada.

O que o poema nos diz

Em “A Recitação do rosário”, o eu lírico fala da vulnerabilidade do corpo que envelhece. Assim, pede que o cubram, que cortem suas unhas, que escovem seus dentes. No entanto, o poema não é apenas sobre velhice. É, portanto, sobre dependência e sobre a figura materna — aquela que cuida sem culpa, que reza pelo nascimento de algo forte. Da mesma forma, os fetos que já sabem tudo sugerem que a vida traz seu peso desde antes de começar.

O poema pertence a O jardim das Oliveiras, obra publicada em 1980. Ademais, Adélia Prado é autora de títulos como Cacos para um vitral, A faca no peito e Miserere. Mesmo assim, sua voz continua sendo reconhecida pela mistura única de graça e brutalidade — a marca que faz de cada poema seu um evento singular.

Antonio Cicero

Antonio Cícero – Blackout

Antonio Cícero, poeta e letrista brasileiro, autor de Blackout

Passo a noite a escrever.
Do lado de lá da rua poderia alguém me ver,
daquele prédio às escuras, em frente ao meu, e mais alto.
Que voyeur me espiaria?
De interessante, só faço escrever.
Ele veria decerto a parte traseira do computador;
talvez, daquela outra janela, avistasse, de viés,
o lado esquerdo da minha face de perfil;
jamais entretanto enxergaria certos versos de cristal líquido
que, mal secreto com o sal do meu suor,
já anunciam segredos só meus e de algum leitor
que partilhará comigo o paraíso e o desterro,
o pranto que vem do riso, o acerto que vem do erro.
Disso tudo, meu vizinho nem de longe desconfia.
Mas e se ele, tendo lido meus lábios,
que pronunciam o que na tela está escrito,
perceber-se desterrado não só do meu paraíso:
do meu desterro, coitado?
E se ele a tudo atentar e por inveja e recalque
me der um tiro de lá?
Melhor fechar o blackout.

Antonio Cícero, Fullgás, Poesia reunida

Sobre Antonio Cícero e “Blackout”

Antonio Cícero Blackout é um dos poemas mais instigantes de Fullgás, Poesia reunida. Por isso, merece atenção especial: nele, Antonio Cícero transforma o ato de escrever numa cena de tensão e humor. Além disso, o poema revela muito sobre a poética desse autor — sua ironia, sua lucidez e seu amor pelo paradoxo.

Antonio Cícero: um poeta entre a filosofia e a canção

Antonio Cícero nasceu no Rio de Janeiro, em 1945. Dessa forma, cresceu no centro de uma das culturas mais ricas do país. Além disso, formou-se em filosofia, o que marcou profundamente sua escrita. Por isso, sua poesia pensa sem perder o encantamento — e encanta sem perder o rigor.

É também um dos grandes letristas da MPB. No entanto, sua poesia vai além das canções. Portanto, em livros como Guardar e Fullgás, Antonio Cícero constrói um universo onde forma e conteúdo se completam. Você pode conhecer mais sobre sua obra em Guardar e em Alguns versos, também publicados aqui no Tudo é Poema.

Antonio Cícero Blackout: o segredo da escrita exposto

Em “Blackout”, o eu lírico escreve sozinho à noite. No entanto, percebe que pode ser observado de um prédio escuro do outro lado da rua. Assim, surge a tensão central do poema: o segredo da escrita e o risco da exposição. Da mesma forma, o vizinho imaginado não acessa apenas a cena — acessa o que ela representa. Por isso, a solução final é ao mesmo tempo cômica e filosófica: fechar o blackout.

O poema pertence a Fullgás, Poesia reunida. Ademais, Antonio Cícero é referência na poesia brasileira contemporânea. Mesmo assim, sua escrita permanece acessível. Conheça também o poema Templo, outro exemplo dessa poesia que une profundidade e leveza.

Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes – Ternura

Vinicius de Moraes, poeta e letrista brasileiro, autor de Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma…
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.

Vinicius de Moraes, Pela luz dos olhos teus

Sobre Vinicius de Moraes e “Ternura”

Vinicius de Moraes Ternura é um dos poemas mais delicados de toda a sua obra. Por isso, merece atenção especial — nele, o poetinha pede perdão por amar. Além disso, o poema revela o que há de mais genuíno em sua poética: o amor como entrega total, sem exaspero e sem promessas vazias.

Vinicius de Moraes: o poetinha do amor

Vinicius de Moraes nasceu no Rio de Janeiro, em 1913. Por isso, carrega em sua obra toda a musicalidade e sensualidade carioca. Além disso, foi diplomata, jornalista e um dos maiores letristas da MPB. Dessa forma, sua poesia transita com facilidade entre o lírico e o musical — entre a página e a canção.

É o autor de A Felicidade, Garota de Ipanema e Eu sei que vou te amar. No entanto, sua poesia vai muito além das músicas. Portanto, em livros como Pela luz dos olhos teus, Vinicius constrói um universo amoroso de rara delicadeza. Você pode conhecer mais sobre sua obra em outros poemas de Vinicius de Moraes aqui no Tudo é Poema.

Vinicius de Moraes Ternura: o amor que pede perdão

Em “Ternura”, o eu lírico não declara o amor com euforia. Ao contrário, pede perdão por amar de repente. Assim, o poema começa com uma confissão incomum — a de quem sente demais e se desculpa por isso. No entanto, essa humildade é, portanto, a maior demonstração de afeto.

Os versos finais são os mais memoráveis. Da mesma forma que a noite cede à aurora, o amor descrito por Vinicius é suave e inevitável. Por isso, “Ternura” permanece atual — porque fala de um sentimento que não envelhece. Ademais, Vinicius de Moraes faleceu em 1980, mas sua obra continua sendo uma das mais lidas e amadas da literatura brasileira.

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira – Estrada

Manuel Bandeira, poeta brasileiro, autor do poema Desesperança

Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo o mundo é igual, todo o mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! que a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.

Manuel Bandeira, Um mês de poesia com Manuel Bandeira

Sobre Manuel Bandeira e “Estrada”

Manuel Bandeira Estrada é um poema sobre o que a cidade apaga e o interior preserva. Por isso, começa com uma declaração simples e poderosa: a estrada interessa mais que a avenida. Além disso, o poema revela o que há de mais característico na poética de Bandeira — o olhar atento ao pequeno, ao cotidiano, ao que passa sem ser visto.

Manuel Bandeira: o poeta do cotidiano e da leveza

Manuel Bandeira nasceu no Recife, em 1886. Por isso, sua poesia carrega a memória do Nordeste — a infância, as ruas, os sons do interior. Além disso, viveu grande parte da vida no Rio de Janeiro, e foi um dos fundadores do Modernismo brasileiro. Dessa forma, sua obra une tradição e ruptura com uma naturalidade única.

É autor de obras fundamentais como Libertinagem, Estrela da Manhã e Itinerário de Pasárgada. No entanto, sua grandeza está justamente na aparente simplicidade. Por isso, seus versos falam da vida comum com uma profundidade que surpreende. Portanto, Manuel Bandeira é considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa.

Manuel Bandeira Estrada: a vida que passa pelo caminho

Em “Estrada”, o eu lírico observa a vida a partir de uma estrada de interior. Assim, cada detalhe — os cães preocupados, a carrocinha de leite, o murmúrio da água — torna-se símbolo. No entanto, o poema não é nostálgico no sentido sentimental. É, portanto, uma meditação sobre o tempo e sobre a singularidade de cada criatura.

O verso final é o mais contundente. Da mesma forma que a água murmura sem parar, a vida passa — e a mocidade vai acabar. Por isso, “Estrada” permanece tão atual: porque fala do que é universal através do que é miúdo. Ademais, Manuel Bandeira faleceu em 1968, mas sua voz continua sendo uma das mais vivas da poesia brasileira.

Thelma Miguel

Thelma Miguel – Poeta sem voz

Thelma Miguel, poeta brasileira, autora de Poeta sem voz

por que fui nascer poeta?
as palavras me engasgam
prendem na garganta
falta o ar
não embelezam meu dia
não hoje
não neste dia
a vida de poeta
me embaralha nas letras
fico perdida nas emoções
nas curvas da vida
porque o poeta
sente forte o que vê
às vezes enlouquece
quando as palavras perdidas
pelo corpo
engessam a alma
o poeta se desespera
quando o silêncio
vence o grito
e ele não consegue
pôr no papel
aquilo que em sua alma
sangra
o poeta enlouquece
quando uma página branca
atravessa o seu dia
os rabiscos ficam vazios
sem nexo
ele risca
rabisca em vão
e não consegue
que sua alma se esparrame
tempos sombrios
para o poeta que se delicia com a beleza
com a suavidade da alma
hoje um martelo crava
em seu peito uma estaca
e ele não consegue respirar
de dor
as palavras perderam o caminho da boca
ficam embrulhadas no meio do estômago
não sai uma só palavra
só restou um vazio
oco
no meio dos lábios

Thelma Miguel, O silêncio e o grito

Sobre Thelma Miguel e “Poeta sem voz”

Thelma Miguel poeta sem voz é um dos poemas mais corajosos de O silêncio e o grito. Por isso, merece atenção especial. Além disso, nele a poeta escreve sobre a impossibilidade de escrever. Consequentemente, o poema revela uma tensão que todo criador já sentiu. Da mesma forma, quem nunca escreveu poesia também reconhece esse vazio.

Thelma Miguel: a poeta que escreve sobre o silêncio

Thelma Miguel é poeta brasileira contemporânea. Por isso, sua escrita carrega uma honestidade rara. Além disso, ela não escreve sobre o que é belo, mas sobre o que é verdadeiro. Dessa forma, seus poemas falam diretamente à experiência de quem cria. No entanto, essa dureza é também sua maior força. Por outro lado, sua linguagem é simples e acessível. Portanto, alcança leitores que não se identificam com a poesia clássica. Ademais, quem a lê reconhece nas palavras algo que já viveu. Consequentemente, ela ocupa um lugar singular na literatura brasileira. Ainda assim, sua obra é pouco conhecida fora dos círculos literários. Por isso, publicar e divulgar sua poesia é um ato necessário.

Thelma Miguel poeta sem voz: quando o silêncio vence o grito

Em “Poeta sem voz”, o eu lírico questiona sua própria natureza. Assim, a pergunta inicial não é retórica. Por isso, é um desabafo real e urgente. No entanto, o poema não é derrotista. Da mesma forma que o silêncio pode vencer o grito, o grito pode romper o silêncio. Além disso, o próprio poema é prova dessa ruptura. Portanto, escrever sobre não conseguir escrever também é escrever.

Os versos finais são os mais contundentes. Ademais, a imagem do vazio oco no meio dos lábios resume com precisão o bloqueio criativo. Mesmo assim, o fato de o poema existir já é uma vitória. Por isso, as palavras encontraram o caminho de volta. Consequentemente, Thelma Miguel nos lembra que a voz do poeta nunca some de verdade — apenas espera.