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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira – Desesperança

Manuel Bandeira, poeta brasileiro, autor do poema Desesperança

Esta manhã tem a tristeza de um crepúsculo.
Como dói um pesar em cada pensamento!
Ah, que penosa lassidão em cada músculo…
O silêncio é tão largo, é tão longo, é tão lento
Que dá medo… O ar, parado, incomoda, angustia…
Dir-se-ia que anda no ar um mau pressentimento.
Assim deverá ser a natureza um dia,
Quando a vida acabar e, astro apagado, a Terra
Rodar sobre si mesma estéril e vazia.
O demônio sutil das nevroses enterra
A sua agulha de aço em meu crânio doído.
Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra…
Minha respiração se faz como um gemido.
Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.
Por onde alongue o meu olhar de moribundo,
Tudo a meus olhos toma um doloroso aspeto:
E erro assim repelido e estrangeiro no mundo.
Vejo nele a feição fria de um desafeto.
Temo a monotonia e apreendo a mudança.
Sinto que a minha vida é sem fim, sem objeto…
– Ah, como dói viver quando falta a esperança!

Manuel Bandeira, A cinza das horas

Sobre Manuel Bandeira e “Desesperança”

“Desesperança” é um poema de Manuel Bandeira escrito em 1912. Foi publicado em A Cinza das Horas, seu livro de estreia. Nele, o poeta descreve o peso da melancolia e o pressentimento da morte. As imagens vão do crânio doído à Terra girando estéril no espaço.

Manuel Bandeira: o poeta da dor e da leveza

Manuel Bandeira nasceu em Recife, em 1886. Foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Diagnosticado com tuberculose ainda jovem, conviveu por décadas com a perspectiva da morte. Isso marcou profundamente sua poesia. A Cinza das Horas reflete esse período de reclusão e angústia. Mais tarde, Bandeira se tornaria um dos pioneiros do Modernismo brasileiro.

“Desesperança”: a dor de viver sem sentido

No poema, o eu lírico acorda com a sensação de que o mundo perdeu o sentido. A manhã parece um crepúsculo. O silêncio oprime. A morte chama. O verso final resume o tema central: a existência como fardo quando a esperança desaparece.

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira – Estrada

Manuel Bandeira, poeta brasileiro, autor do poema Desesperança

Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo o mundo é igual, todo o mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! que a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.

Manuel Bandeira, Um mês de poesia com Manuel Bandeira

Sobre Manuel Bandeira e “Estrada”

Manuel Bandeira Estrada é um poema sobre o que a cidade apaga e o interior preserva. Por isso, começa com uma declaração simples e poderosa: a estrada interessa mais que a avenida. Além disso, o poema revela o que há de mais característico na poética de Bandeira — o olhar atento ao pequeno, ao cotidiano, ao que passa sem ser visto.

Manuel Bandeira: o poeta do cotidiano e da leveza

Manuel Bandeira nasceu no Recife, em 1886. Por isso, sua poesia carrega a memória do Nordeste — a infância, as ruas, os sons do interior. Além disso, viveu grande parte da vida no Rio de Janeiro, e foi um dos fundadores do Modernismo brasileiro. Dessa forma, sua obra une tradição e ruptura com uma naturalidade única.

É autor de obras fundamentais como Libertinagem, Estrela da Manhã e Itinerário de Pasárgada. No entanto, sua grandeza está justamente na aparente simplicidade. Por isso, seus versos falam da vida comum com uma profundidade que surpreende. Portanto, Manuel Bandeira é considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa.

Manuel Bandeira Estrada: a vida que passa pelo caminho

Em “Estrada”, o eu lírico observa a vida a partir de uma estrada de interior. Assim, cada detalhe — os cães preocupados, a carrocinha de leite, o murmúrio da água — torna-se símbolo. No entanto, o poema não é nostálgico no sentido sentimental. É, portanto, uma meditação sobre o tempo e sobre a singularidade de cada criatura.

O verso final é o mais contundente. Da mesma forma que a água murmura sem parar, a vida passa — e a mocidade vai acabar. Por isso, “Estrada” permanece tão atual: porque fala do que é universal através do que é miúdo. Ademais, Manuel Bandeira faleceu em 1968, mas sua voz continua sendo uma das mais vivas da poesia brasileira.