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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa – Os antigos invocavam as Musas

Fernando Pessoa, poeta português, heterônimo Álvaro de Campos

Os antigos invocavam as Musas.
Nós invocamo-nos a nós mesmos.
Não sei se as Musas apareciam —
Seria sem dúvida conforme o invocado e a invocação. —
Mas sei que nós não aparecemos.
Quantas vezes me tenho debruçado
Sobre o poço que me suponho
E balido «Ah!» para ouvir um eco,
E não tenho ouvido mais que o visto —
O vago alvor escuro com que a água resplandece
Lá na inutilidade do fundo…
Nenhum eco para mim…
Só vagamente uma cara,
Que deve ser a minha, por não poder ser de outro.

É uma coisa quase invisível,
Excepto como luminosamente vejo
Lá no fundo…
No silêncio e na luz falsa do fundo…

Que Musa!.

Fernando Pessoa, Poesia Completa de Álvaro de Campos

Sobre Fernando Pessoa e “Os antigos invocavam as Musas”

Fernando Pessoa os antigos invocavam as Musas é um poema que fala sobre a solidão da criação. Por isso, merece atenção especial — nele, Álvaro de Campos questiona a própria inspiração. Além disso, o poema revela o que há de mais genuíno na poética pessoana: a busca pelo eu que não se encontra.

Fernando Pessoa e Álvaro de Campos: o heterônimo da modernidade

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em 1888. Por isso, viveu entre dois mundos — o português e o inglês. Além disso, criou uma das obras mais originais da literatura ocidental. Dessa forma, inventou heterônimos completos, com biografias, estilos e visões de mundo próprios. No entanto, Álvaro de Campos é o mais inquieto de todos. Por isso, seus poemas transbordam angústia, ironia e modernidade. Portanto, ler Campos é ler o desconforto de existir com toda a sua intensidade.

Fernando Pessoa os antigos invocavam as Musas: o eco que não vem

Em “Os antigos invocavam as Musas”, o eu lírico se debruça sobre si mesmo. Assim, busca um eco — e encontra apenas sua própria imagem no fundo do poço. No entanto, essa imagem é vaga e quase invisível. Da mesma forma que os antigos invocavam forças externas, o poeta moderno invoca a si mesmo. Por isso, o resultado é o silêncio. Ademais, o verso final — Que Musa! — é uma ironia amarga e precisa. Mesmo assim, é nessa ironia que reside toda a beleza do poema.