Manuel Bandeira

Manuel Bandeira – Cartas de meu avô

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A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.
Cartas de antes do noivado…

Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.
Temendo a cada momento

Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…
A mão pálida tremia

Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.
A paixão, medrosa dantes,

Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.
Depois o espinho do ciúme…

A dor… a visão da morte…
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.
E eu bendigo, envergonhado,

esse amor, avô do meu…
Do meu – fruto sem cuidado
Que inda verde apodreceu.
O meu semblante está enxuto.

Mas a alma, em gotas mansas,
Chora, abismada no luto
Das minhas desesperanças…
E a noite vem, por demais

Erma, úmida e silente…
A chuva em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.

E enquanto anoitece, vou
lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

 

Manuel Bandeira, A Cinza das Horas

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3 Comments

  • Reply
    Laurindo Bonilha
    09/09/2024 at 18:38

    Ainda há ventos que nos empurram a sonhar e até a gastar algum tempo lendo e refletindo poemas, com suas poesias embutidas. Admiro a tentativa deste espaço e agradeço os poemas que li aqui.

    • Reply
      Tudo é Poema
      28/11/2024 at 13:16

      Que bonito reconhecimento! A poesia é mesmo um desses ventos que nos leva a lugares de reflexão e inspiração. Ficamos felizes em saber que este espaço tocou você. Volte sempre para sonhar e refletir mais conosco!

  • Reply
    MARIA APPARECIDA GOMES PIOLA
    02/01/2026 at 20:56

    Acabei de conhecer este espaço sagrado da poesia e quero agradecer aos seus criadores por selecionar um poema tão cheio de lembranças. Acabei de engolir um choro ao ler “Cartas de meu avô”, de Manuel Bandeira. Vou espalhar para mais gente curtir esse encontro tão cheio de solidariedade. Obrigada.

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