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Thelma Miguel

Thelma Miguel

Thelma Miguel – Poeta sem voz

Thelma Miguel, poeta brasileira, autora de Poeta sem voz

por que fui nascer poeta?
as palavras me engasgam
prendem na garganta
falta o ar
não embelezam meu dia
não hoje
não neste dia
a vida de poeta
me embaralha nas letras
fico perdida nas emoções
nas curvas da vida
porque o poeta
sente forte o que vê
às vezes enlouquece
quando as palavras perdidas
pelo corpo
engessam a alma
o poeta se desespera
quando o silêncio
vence o grito
e ele não consegue
pôr no papel
aquilo que em sua alma
sangra
o poeta enlouquece
quando uma página branca
atravessa o seu dia
os rabiscos ficam vazios
sem nexo
ele risca
rabisca em vão
e não consegue
que sua alma se esparrame
tempos sombrios
para o poeta que se delicia com a beleza
com a suavidade da alma
hoje um martelo crava
em seu peito uma estaca
e ele não consegue respirar
de dor
as palavras perderam o caminho da boca
ficam embrulhadas no meio do estômago
não sai uma só palavra
só restou um vazio
oco
no meio dos lábios

Thelma Miguel, O silêncio e o grito

Sobre Thelma Miguel e “Poeta sem voz”

Thelma Miguel poeta sem voz é um dos poemas mais corajosos de O silêncio e o grito. Por isso, merece atenção especial. Além disso, nele a poeta escreve sobre a impossibilidade de escrever. Consequentemente, o poema revela uma tensão que todo criador já sentiu. Da mesma forma, quem nunca escreveu poesia também reconhece esse vazio.

Thelma Miguel: a poeta que escreve sobre o silêncio

Thelma Miguel é poeta brasileira contemporânea. Por isso, sua escrita carrega uma honestidade rara. Além disso, ela não escreve sobre o que é belo, mas sobre o que é verdadeiro. Dessa forma, seus poemas falam diretamente à experiência de quem cria. No entanto, essa dureza é também sua maior força. Por outro lado, sua linguagem é simples e acessível. Portanto, alcança leitores que não se identificam com a poesia clássica. Ademais, quem a lê reconhece nas palavras algo que já viveu. Consequentemente, ela ocupa um lugar singular na literatura brasileira. Ainda assim, sua obra é pouco conhecida fora dos círculos literários. Por isso, publicar e divulgar sua poesia é um ato necessário.

Thelma Miguel poeta sem voz: quando o silêncio vence o grito

Em “Poeta sem voz”, o eu lírico questiona sua própria natureza. Assim, a pergunta inicial não é retórica. Por isso, é um desabafo real e urgente. No entanto, o poema não é derrotista. Da mesma forma que o silêncio pode vencer o grito, o grito pode romper o silêncio. Além disso, o próprio poema é prova dessa ruptura. Portanto, escrever sobre não conseguir escrever também é escrever.

Os versos finais são os mais contundentes. Ademais, a imagem do vazio oco no meio dos lábios resume com precisão o bloqueio criativo. Mesmo assim, o fato de o poema existir já é uma vitória. Por isso, as palavras encontraram o caminho de volta. Consequentemente, Thelma Miguel nos lembra que a voz do poeta nunca some de verdade — apenas espera.

Thelma Miguel

Thelma Miguel – Eu

Thelma Miguel, poeta brasileira, autora de Poeta sem voz

sou eu
mulher rachada ao meio
que pareço inteira
mas quebro
por qualquer besteira
julgada a vida inteira
descendo a ladeira
fingindo subir

sou eu
aquela que se espanta
com notícias de jornal
e vê o caos
que destrói o sossego
de qualquer mortal
que é dito
como novo normal

sou eu
cambaleante, sonhadora
que se esfacela à noite
deitada na cama
tentando dormir
na frustrada tentativa
de recuperar o juízo
ou virar personagem
e pela manhã
voltar a sorrir

sou eu
chamada às letras
tentando a cura da alma
que sofro
todos os dias
com o que sai de mim
a mediocridade anormal
escassa
vazia
oca
acabou-se
Fim


Thelma Miguel, O Silêncio e o grito