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Nina Rizzia

Nina Rizzia

Nina Rizzi – Demmens

você me pegava as mãos quando eu menos esperava. e eu
nunca via mais que um dostoiévski em teus
lábios. teus e não seus.

o que diziam nossas veredas bifurcadas? uma senda
entre teus nimbos-nimbos e meus cirros. branco, breu.
caminhávamos, ladoalado caminhávamos e ria
que eu poda cair. e eu ria que podia
me segurar. e ríamos de quem
nos chorava o medo.

eu podia te ver chegar. você dizia
uma saudade e seus braços cruzados
outra coisa, que eu não podia
entender. seus lábios, seus e não
teus, são cerrados pra o que não
é contradição.

eu chorava. eu acordava com a media
luz e chorava a sua sinceridade, não querer
e querer é sempre a mesma coisa. eu chorava
o seu gozo em minha língua, os desenhos das tuas mãos
que tanto falavam de mim, um brinco

perdido, meus cabelos emaranhados no edredom.

aí você queria me ver nas esquinas dos mais largos
bulevares, que seria um perigo eu me perder
em teu buraco negro.
e tomamos caldo. você verde
eu de cebola. torradas. e eu não podia
me embriagar do chileno e seco
vinho que você fazia questão de me pagar. eu não
me embriagava e te via partir no metrô, ônibus,
vontade. nossos lábios lábios se tocavam quase
-sem-querer. nossas mãos não queriam se
desgrudar, mas não eram nossos os nossos
corpos que não se queriam e eu te via
partir e você não me via icar.

e quando eu parti você me mandou
girassóis mortos pr’eu me contentar e eu
mijei sobre eles, pensando em tua namoradinha
inglesa. e eu sou mediterrâneo-africana.
depois, faminta da tua ausência e miséria, comi, tua

lembrança, intratável.

Nina Rizzi, tambores pra n’zinga

Nina Rizzia

Nina Rizzia – Poema só para bandeira e voglia

quando fui me deitar ventava, a menina esperneava o
calor
sem qualquer maldade a agasalhei na rede.

fumei meu último cigarro da noite enquanto balançava
pra lá, pra cá, pra lá, pra cá.

pensava na mulher que tenho sonhado, mulher que
chamo voglia
sonhava seu riso contido, o beijo que lhe dei e sua
resposta, lágrima de ouro.

quando acordei, o sol subia pelo horizonte do mar
amarelo e dolorido como há-de ser o sol.

me lavei, lavei a menina e saímos
depois do meu café amargo, dois cigarros.

agora fico aqui, tentando encontrar esse verso arisco
que lhe diga
– voglia, ainda sonho contigo.

Nina Rizzia, A duração do deserto

Nina Rizzia

Nina Rizzia – Cantata ao namorado

não enlace tua ideia à minha
desabite o nome e fúria
suzanne déchevaux-dumesnil

em um só tempo de árvores maduras
para o alto com as mãos:
a noite está tão fria lá fora e o silêncio pesa

vem, cola tua mão na minha
até que seja invisível ao mundo
como às tardes nouvelle vague

oferece ao largo tua ausência
em detrimento de mim – insula
e o seu duplo – epistolares

e fiquemos pois amassados
e esquecidos – em nossa sta.maría
calados como quem gane

 

Nina Rizzia, A duração do deserto