Caio Meira – Uma tarde

nossa vida se desentranha de si mesma como quem se pesca
a si mesmo
como se diz lá em goiás de quem sai
pra pescar à tarde e volta pra casa sem um peixe sequer
sem que se cumpra a tarde de pescaria sem
que um peixe, por menor que seja,
morda a isca e seja puxado pra fora
d’água
diz-se desse pescador sem o peixe, da pescaria sem
a captura, diz-se
que voltou pra casa com o dedo enfiado
no cu, assim pensei em todos esses anos
de nossas vidas com o dedo enfiado no cu
sem cumprir nossa viagem
nessa tarde em que ficamos lado a lado ou qualquer outra
voltando pra casa saindo
de casa entrando saindo de casa sem
a captura cotidiana efetiva total dissimulada espontânea
plebeia ilusória
falsa original sofrida inventada artificial postiça parcial
narrada régia
fingida imaginária criadora quimérica fantasiosa elaborada
chorada prosaica por todos esses anos com o dedo enfiado
sem capturar nossa tarde, com seus cheiros e brilhos,
as tardes
que escoam pelos dedos e pelos cabelos e caem
como meus pelos e cabelos que agora entopem os ralos
e canos
dessa tarde em que circulamos agora

 

Caio Meira, Romance