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Tudo é Poema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa – Não posso adiar o amor para outro século

antonio ramos rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração

Antonio Ramos Rosa, Obra poética I

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Ressurreições

pablo neruda

Amiga, é teu beijo quem canta como um sino na água
da catedral submergida por cujas janelas
entravam os peixes sem olhos, as algas viciosas,
embaixo no lodo do lago Llanquihue que adora a neve,
teu beijo desperta o som e propaga para as ilhas do vento
uma encubação de nenúfar e sol submarino.
Assim do letargo cresceu a corrente que nomeia as coisas:
teu amor sacudiu os metais que afundou a catástrofe,
teu amor amassou as palavras, dispôs a cor da areia,
e levantou no abismo a torre terrestre e celeste.

Pablo Neruda, A barcarola

Noémia de Sousa

Noémia de Sousa – Nossa voz

noémia de sousa

Nossa voz ergueu-se consciente e bárbara
sobre o branco egoísmo dos homens
sobre a indiferença assassina de todos.
Nossa voz molhada das cacimbadas do sertão
nossa voz ardente como o sol das malangas
nossa voz atabaque chamando
nossa voz lança de Maguiguana
nossa voz, irmão,
nossa voz trespassou a atmosfera conformista da cidade
e revolucionou-a
arrastou-a como um ciclone de conhecimento.

E acordou remorsos de olhos amarelos de hiena
e fez escorrer suores frios de condenados
e acendeu luzes de esperança em almas sombrias de desesperados…

Nossa voz, irmão!
nossa voz atabaque chamando.

Nossa voz lua cheia em noite escura de desesperança
nossa voz farol em mar de tempestade
nossa voz limando grades, grades seculares
nossa voz. irmão! nossa voz milhares,
nossa voz milhões de vozes clamando!

Nossa voz gemendo, sacudindo sacas imundas,
nossa voz gorda de miséria,
nossa voz arrastando grilhetas
nossa voz nostálgica de impis
nossa voz África
nossa voz cansada da masturbação dos batuques de guerra
nossa voz negra gritando, gritando, gritando!
Nossa voz que descobriu até ao fundo,
lá onde coaxam as rãs,
a amargura imensa, inexprimível, enorme como o mundo,
da simples palavra ESCRAVIDÃO:
Nossa voz gritando sem cessar,
nossa voz apontando caminhos
nossa voz shipalapala
nossa voz atabaque chamando
nossa voz, irmão!
nossa voz milhões de vozes clamando, clamando, clamando!

Noémia de Sousa, Sangue negro

Mia Couto

Mia Couto – Incertidão de óbito

mia couto

Quando forem de pedra
os teus olhos:
uns te darão por falecido.

Quando forem de fogo
os insetos que te devoram:
talvez então te digam defunto.

Mas nem pedra nem fogo
te darão ausência:
no teu ombro
pousa o voo dos regressos.

A vida
é um prematuro sonho.

Só morre
quem nunca viveu.

Mia Couto, Vagas e lumes

Jacques Prévert

Jacques Prévert – Dia de folga

Jacques Prévert

Pus o meu quepe na gaiola
e saí com o pássaro na cabeça
Como é que é
não se bate mais continência?
perguntou o comandante
Não
não se bate mais continência
respondeu o pássaro
Ah bom
queira me desculpar eu pensei que se batesse continência
disse o comandante
Está desculpado qualquer um pode se enganar
disse o pássaro.

Jacques Prévert, Dia de folga

Lêdo Ivo

Lêdo Ivo – Soneto de abril

lêdo ivo

Agora que é abril, e o mar se ausenta,
secando-se em si mesmo como um pranto,
vejo que o amor que te dedico aumenta
seguindo a trilha de meu próprio espanto.

Em mim, o teu espírito apresenta
todas as sugestões de um doce encanto
que em minha fonte não se dessedenta
por não ser fonte d’água, mas de canto.

Agora que é abril, e vão morrer
as formosas canções dos outros meses,
assim te quero, mesmo que te escondas:

amar-te uma só vez todas as vezes
em que sou carne e gesto, e fenecer
como uma voz chamada pelas ondas.

Lêdo Ivo, Melhores poemas

Adélia Prado

Adélia Prado – Mais uma vez

adélia prado

Não quero mais amar Jonathan.
Estou cansada deste amor sem mimos,
destinado a tornar-se um amor de velhos.
Oh! nunca falei assim —
um amor de velhos.
Ainda bem que é mentira.
Mesmo que Jonathan me olvide
e esta canção desafine
como um bolero ruim,
permaneço querendo a bicicleta holandesa
e mais tarde a cripta gótica
pra nossos ossos dormirem.
Ó Jonathan,
não depende de você
que a cornucópia invisível jorre ouro.
Nem de mim.
Quero enfear o poema
pra te lançar meu desprezo,
em vão.
Escreve-o quem me dita as palavras,
escreve-o por minha mão.

Adélia Prado, A faca no peito

Patativa do Assaré

Patativa do Assaré – O banco do Chico rosado

Tudo quanto é peste e praga,
Sempre acompanha o poeta,
Sua desgraça é completa,
Sua luz sempre se apaga.
Antônio T. de Gonzaga
Foi preso e foi exilado,
Camões morreu desprezado
E eu vivo doente e manco
Porque sentei-me no banco
Do senhor Chico Rosado.

Eu muito me prejudico
Com o pequenino assento,
Sofri o maior tormento
Sobre o banquinho do Chico;
Triste e desgostoso fico
Pensando em meu padecer
E ele, pra se defender,
É um sujeito ladino,
Tem um banco pequenino
Que bota o povo a correr.

A casa que o Chico habita,
Bem pouca gente frequenta
Porque nela se apresenta
Uma sentença maldita:
Quando ele quer que a visita
Tenha bem pouca demora
Traz o banquinho pra fora,
No mesmo o pobre se senta,
Peleja, mas não aguenta,
Dá adeus e vai embora.

A minha terra adorada
Tem gente pra tudo e sobra
Cabra de gênio de cobra
Que topa toda parada,
Não se importa com zoada
E nem tem medo de azar,
No momento de brigar
Faz barulho e faz fuxico,
Porém, o banco do Chico
Não há quem queira alisar.

Patativa do Assaré, Melhores poemas

Lili Reinhart

Lili Reinhart – Fazia tempo que eu não tinha

Lili Reinhart

Fazia tempo que eu não tinha
um momento para sentir sua falta
e para chorar.

Essa brisa morna de verão
na minha varanda me faz
pensar em Cape Cod
e nas suas roupas de banho floridas.

Em como você nunca usava protetor solar
mas sempre falava para a gente usar.

Mesmo nesta cidade barulhenta,
há momentos silenciosos em que sua alma
se faz presente.

E sinto que você está de novo
ao meu lado na praia.

Então vou esperar o sol baixar
antes de voltar lá para dentro.

Por ora, podemos ficar aqui
ouvindo o mar.

Lili Reinhart, Nado Livre: Swimming Lessons

Jorge de Lima

Jorge de Lima – A morte do artista

jorge de lima

É morto o Artista, o torturado Artista…
Ei-lo sem vida, como um cristo louro…
Dizem que foi sua maior conquista
Polir o verso do seu estro de ouro!

Paira por tudo a viuvez e o agouro…
Não há talvez quem neste mundo exista
Que ao vê-lo morto para sempre, em choro
Não sinta logo anuviar-se a vista…

Mas o martírio que se renovava!
Quando quiseram transportá-lo, fora
Cobriu-se tudo de um celeste brilho:

Nossa Senhora soluçando estava…
Tanto chorara por Jesus outrora,
Quanto chorava pelo novo filho!

Jorge de Lima, Melhores poemas

Jean Carlo Barusso

Jean Carlo Barusso – Amor de navegantes

Jean Carlo Barusso

Duro namorar
Quem namora o mar
Faço do peito o porto
Para que possa voltar
Já houve desembarque
Neste velho peito
Mas não teve jeito
O lugar já era seu
Por destino ou direito
Agora vivo a esperar
Cada dia é um baque
A vaga é sua, ocupe-a
Não navegue mais
Volte, marinheira,
Volte para o cais

Jean Carlo Barusso, Viva a poesia

Antero de Quental

Antero de Quental – Ignoto deo

Que beleza mortal se te assemelha,
Ó sonhada visão desta alma ardente,
Que refletes em mim teu brilho ingente,
Lá como sobre o mar o sol se espelha?

O mundo é grande — e esta ânsia me aconselha
A buscar-te na terra: e eu, pobre crente,
Pelo mundo procuro um Deus clemente,
Mas a ara só lhe encontro… nua e velha…

Não é mortal o que eu em ti adoro.
Que és tu aqui? olhar de piedade,
Gota de mel em taça de venenos…

Pura essência das lágrimas que choro
E sonho dos meus sonhos! se és verdade,
Descobre-te, visão, no céu ao menos!

Antero de Quental, Sonetos completos

Murilo Mendes

Murilo Mendes – O menino sem passado

Monstros complicados
não povoaram meus sonhos de criança
porque o saci-pererê não fazia mal a ninguém
limitando-se moleque a dançar maxixes desenfreados
no mundo das garotas de madeira
que meu tio habilidoso fazia para mim.

A mãe-d’água só se preocupava
em tomar banhos asseadíssima
na piscina do sítio que não tinha chuveiro.

De noite eu ia no fundo do quintal
pra ver se aparecia um gigante com trezentos anos
que ia me levar dentro dum surrão,
mas não acreditava nada.

Fiquei sem tradição sem costumes nem lenda
estou diante do mundo
deitado na rede mole
que todos os países embalançam.

Murilo Mendes, Melhores poemas

Mario Quintana

Mario Quintana – Canção de outono

mario quintana

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma.
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
de carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!

Mario Quintana, A rua dos cataventos

Elizabeth Acevedo

Elizabeth Acevedo – Sentando na calçada

Elizabeth Acevedo

O verão existe para se sentar na calçada
e a uma semana do começo das aulas,
o Harlem abre os olhos pra setembro.

Eu observo o quarteirão que sempre chamei de lar.

Vejo as velhinhas da igreja, chinelas estapeando a calçada,
suas bocas desatando carretas de espanhol caribenho
espalhando seus disse me disse.

Espio Papote da rua de baixo
abrindo o hidrante
e as crianças correm pelo veio d’água.

Ouço os táxis piratas buzinando, bachata a todo volume
vazando das janelas abertas,
competindo com os ecos do basquete no Little Park.

Risos dos viejos — não do meu pai —
finalizando partidas de dominó com tapas
e gritos de “Capicu!”

Balanço a cabeça quando até os traficantes a postos perto do prédio
sorriem mais no verão, as caras feias se amaciando
em olhares grudentos para

as garotas em vestidos frescos e shorts:

— Ayo, Xiomara, você tem que usar uns vestidos assim!
— Porra, te casariam antes do fim das férias.
— Até porque todo mundo sabe que as carolas são as mais putas.

Mas eu ignoro as provocações, aproveito o finzinho da liberdade,
e espero as longas sombras me dizerem
quando Mami está para chegar do trabalho,

quando está na hora de subir às escondidas.

Elizabeth Acevedo, A poeta X