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Tudo é Poema

José Saramago

José Saramago – As palavras de amor

Esqueçamos as palavras, as palavras:
As ternas, caprichosas, violentas,
As suaves de mel, as obscenas,
As de febre, as famintas e sedentas.

Deixemos que o silêncio dê sentido
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre:
Que palavra ou discurso poderia

Dizer amar na língua da semente?

José Saramago, Provavelmente alegria

Mano Melo

Mano Melo – Barco do tempo

tem sonhos que a gente quer
que quanto mais se busca mais foge
vai se derramando uma chuva ao longe
a gente pensa que está tudo nascendo
mas é só do esforço de seguir vivendo

aí vem uma luz que brilha dentro e corre
aí vem uma voz que chama dentro e morre

de tudo que a gente quer
a gente mais quer quando sente
que tudo do mundo está dentro da gente
olhamos para as cores e vemos que tudo é lindo!
é só da vontade de seguir sorrindo

aí vem uma luz que chama dentro e cresce
aí vem uma voz que acalanta e aquece
o sonho de amar que faz seguir amando
dá vento ao barco pra ir navegando

mãe linda embalava olhando as ondas
do mar encantado
o barco do tempo foi pescar noutro lado
cantou pássaro da sorte no pé de coqueiro
saudade dançou na chama do candeeiro

barco do tempo
passa no vento
barco barco do tempo
passa passa no vento

Mano Melo, O lavrador de palavras

Tristan Corbière

Tristan Corbière – Aventura galante e a ventura

Eu faço o ponto, quando belo vai o dia,
Para a passante que, com satisfação,
À ponta da sombrinha me fisgaria
O piscar da pupila, a pele do coração.

E acho que estou feliz – um pouco – é a vida:
O mendigo distrai a fome na bebida…

Um belo dia – triste ofício! – eu, assim,
– Ofício!.. – velejava. Ela passou por mim.
– Ela quem? – A Passante! E a sombrinha também!
Lacaio de carrasco, toquei-a… – porém,

Contendo um sorriso, Ela espiou meus botões
E… estendeu-me a mão, e…
me deu uns tostões.

Tristan Corbière, Os amores amarelos

Ted Hughes

Ted Hughes – Fidelidade

Era um lugar para morar. Eu vivia
Cercando você, fazendo a corte,
Impelido pela maré matinal e a embriaguez
Dos vinte e cinco anos. Eviscerada, refeita
À moda da época, a Alexandra House
Virou um dispensário. Isso foi antes
Do tempo da vanguarda dos cafés.
Na cantina barulhenta do British Restaurant,
Serviço público que sobrevivera à guerra,
O desjejum curava os estragos da noite.
Mas ia-se à Alexandra House para ser visto.
As funcionárias moravam no prédio
Com um séquito de vadios que navegavam as noites
E dormiam os dias. Dei um jeito de arranjar
Um colchão lá em cima, num sótão,
Com vista para a Petty Cury. Um colchão
Nu, sobre tábuas nuas, num quarto nu.
De meu, só um caderno e o tal colchão.
Sob a clarabóia – castanheiros carregados de botões
Até maio – tenho largado meu emprego, meu único
Trabalho era ganhar você, gastando tudo que eu juntara.
Livre da Universidade, eu regalava-me
Com suas liberdades. Todas as noites
Dormia no colchão, sob um cobertor,
Com uma moça linda, recém-fugida
Do marido para expor-se na fronteira
Do trabalho num dispensário. Que ideal cavalheiresco
Me prendia ali? Relembro esse tempo
Como um tempo que não passa nunca,
Que não usei, e que portanto ainda é meu.
Eu e ela dormimos abraçados,
Nus e à vontade como amantes, trinta noites,
E não fizemos amor nem uma vez.
Uma lei sagrada se inventara, para mim,
Mas também ela a obedecia, qual sacerdotisa,
Terna, carinhosa e nua em pêlo a meu lado.
Com o dedo percorria em minhas costas os lanhos
Que você nelas traçara, como se entrasse
Em minha obsessão, minha concentração,
Para manter intato meu propósito.
Nem uma vez me convidou, nem me tentou.
E nunca fui além de lhe estender
Confortos de irmã. Eu era como sua irmã.
A coisa parecia natural. Eu estava concentrado
Em você com tanta intensidade, tanto brilho,
Que não enxergava nada que não fosse você.
Ainda hoje me pergunto — não sei se devo
Me invejar ou ter pena de mim. A amiga dela
Tinha um quarto maior, e era mais ousada.
Fomos morar com ela. O quarto enorme
Virou dormitório e quartel-general,
Alternativa a St. Botolph’s. Gorducha e vistosa,
Rindo, expondo sem pudor o espaço entre os dentes,
Fez tudo que pôde para que eu a possuísse.
E você nunca há de saber o quanto lutei
Para manter minhas palavras coerentes
Com o mundo que construíamos a dois.
Eu temia que, perdida essa batalha,
Alguma coisa nos abandonasse. Eu levantava
Aquelas moças nuas, a sorrir para mim,
Moças de vinte e poucos anos, e as largava
Sobre a soleira de nosso futuro improvável
Tal como outrora, para proteger um novo lar,
Sob a soleira nova enterrava-se
Uma criança sem pecado.

Ted Hughes, Cartas de aniversário

Cecília Meireles

Cecilia Meireles – Para ir à lua

Enquanto não têm foguetes
para ir à Lua
os meninos deslizam de patinete
pelas calçadas da rua.

Vão cegos de velocidade:
mesmo que quebrem o nariz,
que grande felicidade!
Ser veloz é ser feliz.

Ah! se pudessem ser anjos
de longas asas!
Mas são apenas marmanjos.

Cecilia Meireles, Ou isto ou aquilo

Hilda Hilst

Hilda Hilst – IV (Brotaram flores)

Brotaram flores
nos meus pés.
E o quotidiano
na minha vida
complicou-se.

Diferença triste
aborrecendo o andar
de minhas horas.
Rosa Maria
tem flores na cabeça.
Maria Rosa as leva no vestido.
E esse nascer de flores
nos meus pés,
atrai olhares de espanto.

Ainda ontem
me vieram dizer
se eu as vendia.
Meus pés iriam
com flores andar
sobre o teu silêncio.
Tua vida
no meu caminho,
na caminhada grotesca
daqueles meus pés floridos.

De tanto serem zombadas
morreram adolescentes.
Pobres pés, pobres flores.
Murcharam ontem,
hoje secaram.

E o quotidiano
na minha vida
complicou-se.

Hilda Hilst, Baladas

Sylvia Plath

Sylvia Plath – O caçador de coelhos

Era um lugar de força –
O vento amordaçando minha boca com meus cabelos revoltos,
Arrancando minha voz, e o mar
Me cegando com suas luzes, a vida dos mortos
Se desenrolando nele, se espalhando como óleo.

Provei a perversidade da urze,
Seus espinhos negros,
A extrema-unção de suas flores, velas amarelas.
Tinham eficiência, uma beleza imensa,
E eram extravagantes, feito a tortura.

Só havia um lugar para se chegar.
Fervendo, perfumadas,
As trilhas se estreitavam no vale.
E as armadilhas quase se apagavam –
Zeros, fechando-se no nada,

Bem perto, como contrações de parto.
A ausência de gritos
Abriu uma cratera no dia quente, um vazio.
A luz vítrea era uma parede clara,
Moitas quietas.

Senti um movimento calmo, uma intenção.
Senti mãos em volta de uma caneca de chá, torpes, gumes cegos,
Tocando a porcelana branca.
Como esperaram por ele, aquelas pequenas mortes!
Esperaram como namoradas. O excitaram.

E nós, também, tivemos uma relação –
Arames tesos entre nós,
Estacas profundas demais para se arrancar, e a mente como um anel
Deslizando fechado sobre algo fugaz,
A pressão me matando também.

Sylvia Plath, Ariel

Olavo Bilac

Olavo Bilac – A alvorada do amor

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

“Chega-te a mim! entra no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençoo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação…
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar: turva-se hediondo o céu…

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés…
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
– Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!

Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
– Terra, melhor que o Céu! homem, maior que Deus!”

Olavo Bilac, Antologia poética

Antero de Quental

Antero de Quental – Entre Sombras

Vem às vezes sentar-se ao pé de mim
— A noite desce, desfolhando as rosas —
Vem ter comigo, às horas duvidosas,
Uma visão, com asas de cetim…

Pousa de leve a delicada mão
— Rescende aroma a noite sossegada —
Pousa a mão compassiva e perfumada
Sobre o meu dolorido coração…

E diz-me essa visão compadecida
— Há suspiros no espaço vaporoso —
Diz-me: Porque é que choras silencioso?
Porque é tão erma e triste a tua vida?

Vem comigo! Embalado nos meus braços
— Na noite funda há um silêncio santo —
Num sonho feito só de luz e encanto
Transporás a dormir esses espaços…

Porque eu habito a região distante
— A noite exala uma doçura infinda —
Onde ainda se crê e se ama ainda,
Onde uma aurora igual brilha constante…

Habito ali, e tu virás comigo
— Palpita a noite num clarão que ofusca —
Porque eu venho de longe, em tua busca,
Trazer-te paz e alívio, pobre amigo…

Assim me fala essa visão nocturna
— No vago espaço há vozes dolorosas —
São as suas palavras carinhosas
Água correndo em cristalina urna…

Mas eu escuto-a imóvel, sonolento
— A noite verte um desconsolo imenso —
Sinto nos membros como um chumbo denso,
E mudo e tenebroso o pensamento…

Fito-a, num pasmo doloroso absorto
— A noite é erma como campa enorme —
Fito-a com olhos turvos de quem dorme
E respondo: Bem sabes que estou morto!

Antero de Quental, Sonetos completos

Ana Martins Marques

Ana Martins Marques – Poema de amor

Este é um poema de amor

por isso nele
não poderá faltar
a menção a alguma
flor

e por isso digo
rosa
ou lírio
ou simplesmente
rubro,
rubro

e espero as páginas
imantarem-se
de vermelho

por isso digo
febre
e noite
e fumo

para dizer
ansiedade e
desperdício de sêmen e de horas
e cigarros à janela
acesos como estrelas
com a noite numa ponta
e nós
consumindo-nos
na outra

este é
definitivamente
um poema de amor

por isso nele
devo dizer casa
e olhos
e neblina

e não devo dizer
que o amor é uma doença
uma doença do pensamento
uma desordem que põe tudo o mais
em desordem
uma perda que põe tudo
a perder

e porque é
um poema de amor
sob pena de ser devolvido
como uma carta sem destinatário
(e todos sabem que não se deve
brincar com os correios)
este poema deve dirigir-se
a alguém

porque a alguém o amor deve ferir
com sua pata negra

e então
à falta de outro
este poema
eu o dedico
(mas não tema,
o tempo
também nisso
porá termo)
a você

Ana Martins Marques, Da artes das armadilhas

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Royal flush

Reverências à Dama de Copas,
que ousa andar de coração a mostra,
leva flores nas mãos em vez de espadas,
em vez de paus e pedras enfeitadas,
que ostenta rubra uma paixão exposta.
Transita arfante pelos naipes
à procura de seu rei vermelho;
ao encontrá-lo, se queda de joelhos
férvida, túrgida, convulsa,
invade o castelo, tomba a pilastra,
pinta os quatro ases de amarelo.
Rainha absoluta das cartas da canastra.

Flora Figueiredo, Amor a céu aberto

Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar – Sumário

Polly Kellog e o motorista Osmar.
Dramas rápidos mas intensos.
Fotogramas do meu coração conceitual.
De tomara-que-caia azul marinho.
Engulo desaforos mas com sinceridade.
Sonsa com bom-senso.
Antena da praça.
Artista da poupança.
Absolutely blind.
Tesão do talvez.
Salta-pocinhas.
Água na boca.
Anjo que registra.


Ana Cristina Cesar, A teus pés

Pedro Bandeira

Pedro Bandeira – O circo do contrário

Lá no circo do conrário,
o leão pega o chicote
e obriga o domador
a pular todo sem jeito
para cima do banquinho.

Lá no circo do contrário,
tem a bola colorida
que joga os malabaristas
para cima, para o alto,
sem deixar cair nenhum.

Lá no circo do contrário,
o espetáculo é maluco,
pois de dentro da cartola
o coelho tira o mágico!

Lá no circo do contrário,
os palhaços batem palmas
pois quem faz as palhaçadas
é um menino como eu!

Pedro Bandeira, Por enquanto eu sou pequeno

Adrilles Jorge

Adrilles Jorge – Declaração de amor

Prazer em receber teus beijos estéreis, tuas mentiras escamadas
teus lugares-comuns que revelam verdades viáveis
que duram pela brevidade eterna da tua presença
teus esboços de certezas concretas
que delineiam teu, o nosso caráter sutil e desencorpado

Prazer em abrir corpo e ouvidos para as tuas ordens
infantis de adulta mimada, general que impõe as estratégias de
uma criança
que conquistou sua autoridade pelos caprichos do corpo,
pela curva dos quadris
pela angulação torta do pensamento
por descaminhos reveladores de tua superfície mais oculta
abonadora de tuas virtudes disfarçadas de vícios cativantes

Na melodia das dissonâncias da tua voz, o prazer imediato da
curva que
não te define, da linha oblíqua que oferece o caminho torto que
não te alcança
e que deslumbra os transeuntes que topam com tua natureza
morta,
sempre ressuscitada pela autópsia de corpos retos, elementares,
mortos pelas tuas tangências.

Adrilles Jorge, Antijogo