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Tudo é Poema

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo – Tratado manso de loucura

flora figueiredo

Como amo a paz de estar comigo!
Essa fusão de alma-umbigo,
esse roteiro quente do meu sangue.
Eu que conheço cada palmo dos meus passos,
que me retenho e me disponho.
Faço dos versos meu avesso,
dos adversos, meu passado,
das alegrias, meu recomeço.
Deito liquefeita e, de repente,
amanheço solidificada.
Sou água, sou pedra,
às vezes nuvem,
às vezes nada.
Por ser inconstante e difusa,
enrolo e desenrolo essa vida
num movimento mágico e confuso,
admito ser ou não ser
e ser assim.
Como é bom sentir-me tão querida,
tão bem-amada e tão dividida,

eu resolvida inteiramente por mim!

Flora Figueiredo, Florescência

Elisa Lucinda

Elisa Lucinda – O poema do semelhante

elisa lucinda

O Deus da parecença
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos,

Foi Ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.

Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante
ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.

Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão
É mundão
todo mundo beija
todo mundo almeja
todo mundo deseja
todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.

O Deus que cuida do
não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa
de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele
em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura
a solidão do medo
a solidão da usura
a solidão da coragem
a solidão da bobagem
a solidão da virtude
a solidão da viagem
a solidão do erro
a solidão do sexo
a solidão do zelo
a solidão do nexo.

O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida
Aparecida
santa
puta
criança
deu de me fazer
diferente
pra que eu provasse
da alegria
de ser igual a toda gente

Esse Deus deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.

Não fosse a inteligência
da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança

seria sozinha minha esperança.

Elisa Lucinda, O semelhante

Darcy França Denófrio

Darcy França Denófrio – Alga marinha

Darcy França Denófrio

Alga marinha lançada ao mar aberto,
navego à deriva — não estou presa a nada.

Quero achar o meu caminho — o do começo —
mas me instalaram nesse arremesso
e não conheço a maré do princípio
que me jogou nesse permanente risco.

Alga marinha nesse amaro mar,
sem pontos cardeais, mapa-múndi
ou estrela-guia, vivo à deriva.

Não conheço meu porto (asseguro)
e um dia só serei verdes cabelos
envolvendo corpos destroçados

que viajaram na maré montante
e chegaram afogados de aurora

à praia maior – de todos os oceanos.

Darcy França Denófrio, Amaro mar

Mario Faustino

Mário Faustino – Alma que foste minha

mario faustino

Alma que foste minha,
desprendida de meu corpo e de meu espírito,
leque de palma sem raízes, sem tormentas,
que gênero esta noite te distingue,
que metro te organiza, por que dogmas,
que signos te orientam – rumo a quê?

  • Mestre, qual é o sexo das almas?

Desmarcada e sem cordas
alma que foste minha
sem cravos e sem espinhos
que trigo milenar te mata a fome
divina
que pirâmide encerra tua essência
nudíssima
que corpo te defende de ti mesma
do espaço
que idade, quantas eras, contra o tempo
alma anárquica
desmarcada e sem cravos
sem precisão de estar
ou de ficar
– Que te vale Bizâncio?
ou de mudar
ou de fazer, ou de ostentar
– Que te vale este verso?
apoética, absurda
como chamar-te alma, de quê, quando,
para quê, alma de morto, para onde?

Mário Faustino, O homem e sua hora e outros poemas

Manoel de Barros

Manoel de Barros – O muro

manoel de barros

Não possuía mais a pintura de outros tempos.
Era um muro ancião e tinha alma de gente.
Muito alto e firme, de uma mudez sombria.

Certas flores do chão subiam de suas bases
Procurando deitar raízes no seu corpo entregue ao tempo.
Nunca pude saber o que se escondia por detrás dele.
Dos meus amigos de infância, um dizia ter violado tal
segredo,
E nos contava de um enorme pomar misterioso.

Mas eu, eu sempre acreditei que o terreno que ficava atrás
do muro era um terreno abandonado!

Manoel de Barros, Poesia completa: Manoel de Barros

Adélia Prado

Adélia Prado – Pontuação

adélia prado

Pus um ponto final no poema
e comecei a lambê-lo a ponto de devorá-lo.
Pensamentos estranhos me tomaram:
numa bandeja de prata
uma comida de areia,
um livro com meu nome
sem uma palavra minha.
O medo pode explodir-nos,
é com zelo de quem leva sua cruz
que o carregamos.
Por isso, Deus, Vossa justiça é Jesus,
o Cordeiro que abandonastes.
Assim, quem ao menos se atreve
a levantar os olhos para Vós?
O capim cresce à revelia de mim,
não há esforço no cosmos,
tudo segue a si mesmo,
como eu agora fazendo o que sei fazer
desde que vim ao mundo.
Sou inocente,
pois nem este grito é meu.

Adélia Prado, Poesia reunida

Florbela Espanca

Florbela Espanca – Noite de saudade

florbela espanca

A Noite vem poisando devagar
Sobre a terra que inunda de amargura…
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura…

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura…
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Por que és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem…
Talvez de ti, ó Noite!… Ou de ninguém!…
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

Florbela Espanca, Sonetos Completos

Mia Couto

Mia Couto – Beijo

mia couto

Não quero o primeiro beijo: 
basta-me 
o instante antes do beijo. 

Quero-me 
corpo ante o abismo, 
terra no rasgão do sismo. 

O lábio ardendo 
entre tremor e temor, 
o escurecer da luz 
no desaguar dos corpos: 
o amor 
não tem depois. 

Quero o vulcão 
que na terra não toca: 
o beijo antes de ser boca. 

Mia Couto, Tradutor de chuvas

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Os teus pés

pablo neruda

Quando não posso olhar-te o rosto
olho-te os pés.

Os teus pés de osso arqueado,
os teus pés pequenos e duros.

Sei que te amparam,
e que o teu doce peso
sobre eles se ergue.

A tua cintura e os teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
o estojo dos teus olhos
que acabam de levantar voo,
a tua larga boca de fruta,
os teus cabelos ruivos,
minha pequena torre.

Mas se amo os teus pés
é só por terem andado
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me terem encontrado.

Pablo Neruda, Poema de amor

Jaqueline Ruiz

Jaqueline Ruiz – O sol

jaqueline ruiz

a força que eu busco no outro,
só encontro quando eu me acolho.

envolve um certo risco se amar.
é preciso mergulhar sem saber nadar
e sem saber o que vai encontrar no fundo do mar.
mas é preciso ir.
disparar.

o melhor espelho
para cultivar amor-próprio
é o seu reflexo na água
pouco antes de pular.

há quem cante para Deus, Buda e Iemanjá.
eu canto para mim,
de olhos fechados,
sentindo a leveza do ar me tocar,
para me acalmar.
certa de que toda a espiritualidade,
independente dos nomes que a chamam,
de alguma forma me escuta e
está sempre pronta para me ajudar.

enquanto isso, respeito minhas ondas.
se eu choro, é para me recarregar.
eu me cuido com o amor que cuido dos outros
e com o amor que estou sempre disposta a dar,
por que não há outro jeito a não ser
ser minha amiga.
aceitar meu banquete,
rejeitar migalhas.

o sol descansa para a lua,
mas nunca deixa de brilhar.
felicidade é ponto de vista.

eu canto e escuto ecoar:
trabalhe em você,
na sua paz,
que em breve,
no teu peito,
o amor há de repousar.

Jaqueline Ruizé jornalista, mas seu sonho desde criança é ser escritora.
Compartilha suas poesias sobre a vida, amor e autoconhecimento no perfil
@sertodapoesia, no Instagram, e também no podcast de mesmo nome. Vê poesia
na dança, no pôr-do-sol, na música, em pessoas e em muitas outras coisas. Alguns
de seus autores preferidos são Bell Hooks, Rupi Kaur, Pablo Neruda, Agatha Christie,
Manoel de Barros, Lucão, entre outros. Seu primeiro livro chama-se “Falei de você na
terapia” e será publicado, de forma independente, em breve. Acompanhe o “ser toda
poesia” nas redes sociais para ser informado do lançamento e conferir as demais
poesias da autora.

Boris Pasternak

Boris Pasternak – Hamlet

Boris Pasternak

O murmúrio cessou. Subo ao tablado.
Apoiado ao umbral da porta,
Procuro distinguir no eco apagado
Os desígnios da minha sorte.
A penumbra da noite me devassa
Por trás de mil binóculos iguais.
Se for possível, Abba, meu pai,
Afasta de mim essa taça.
Amo a Tua obstinada trama
E aceito o papel que me foi dado.
Mas agora representam outro drama.
Ao menos dessa vez, deixa-me de lado.
Mas a ordem das cenas foi prevista
E a estrada chega fatalmente ao fim.
Estou só. Tudo afunda em farisaísmo.
Viver não é passear por um jardim.

Boris Pasternak, Poesia Russa Moderna

Anne Sexton

Anne Sexton – Do jardim

Anne Sexton

Vem, meu amado.
olha os lírios.
Temos tão pouca fé.
Falamos demais.
Joga fora teu punhado de palavras
e vem comigo observar
os lírios se abrindo em campo tão vasto,
ali crescendo como iates,
guiando devagarinho as pétalas
sem enfermeiras nem relógios.
Olhemos a paisagem:
uma casa cujos salões enlameados
são adornados por nuvens brancas.
Oh, joga fora tuas palavras, as boas
e as ruins. Cospe
tuas palavras como pedras!
Vem cá! Vem cá!
Vem comer minhas frutas deliciosas.

Anne Sexton, Anne Sexton e a Poesia Confessional

Anne Morrow Lindbergh

Anne Morrow Lindbergh – Concha partida

Anne Morrow Lindbergh

Não procures mais a concha perfeita, a forma
inteira e inviolada, que não trincou sob os dentes do tempo;
a armadura de alabastro ainda intocada
pela ação erosiva das areias e das ondas que rolam na praia.

Que outra beleza poderíamos resgatar do mar inconstante
do que estes pequenos esqueletos que se espalham
como flores dispersas sob o céu,
ainda intactas em sua renúncia de vida?

Eis a manhã da criação
retida em seu pequeno lábio, concavidade vazia, destemida;
sua moldura vazada persiste, como um testamento,
em fragmentos, de seu primeiro movimento terreno.

Veja a espiral que mostra as nervuras
de seu crescimento. Erguida como uma bússola em seu arco,
balança-se eternamente no absoluto,
cantando a beleza como uma flauta de prata.

Anne Morrow Lindbergh, O Unicórnio e outros poemas

Zack Magiezi

Zack Magiezi – Para o amor que vai chegar

Zack Magiezi

meu amor
fico pensando no medo
você tem medo?
medo de tentar de novo
medo de se expor
talvez você olhe as suas cicatrizes
em algum empoeirado espelho feito de tempo
talvez algum instituto mostre
um aumento populacional
dos seus medos
que se reproduzem sem parar
e crescem na sombra da sua solidão
feito fungo que se alimenta do seu sonhar
da sua luz e do seu calor
talvez seja necessário um momento insano
um rompimento
tirar as algemas de todos os gritos
incendiar as suas ruínas
essa queima é permitida
para um novo plantio
e o velho nero irá sorrir

PS: Qual o motivo para os seus sonhos ficarem nos cabides?

Zack Magiezi, Estranherismo