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Tudo é Poema

Torquato Neto

Torquato Neto – Consolação

torquato neto

você me pede
quer ir pro cinema
só que não dá pé de dar
morena
nunca mais vou pro cinema
com você;
você entende
burramente magoada
só que a minha é mais quebrada
morena
e sou eu
e você
e sou eu
e você
condena

condena morena com pena
e um dia depois do outro
se eu não morro de amor
não vale a pena:
cinema
me lembra
aquele happy end
e amor por amor
nem mais um pouco.

Torquato Neto, Melhores poemas

Wisława Szymborska

Wisława Szymborska – Museu

Wisława Szymborska

Há pratos, mas falta apetite.
Há alianças, mas o amor recíproco se foi
há pelo menos trezentos anos.

Há um leque — onde os rubores?
Há espadas — onde a ira?
E o alaúde nem ressoa na hora sombria.

Por falta de eternidade
juntaram dez mil velharias.
Um bedel bolorento tira um doce cochilo,
o bigode pendido sobre a vitrine.

Metais, argila, pluma de pássaro
triunfam silenciosos no tempo.
Só dá risadinhas a presilha da jovem risonha do Egito.

A coroa sobreviveu à cabeça.
A mão perdeu para a luva.
A bota direita derrotou a perna.

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.
Minha competição com o vestido continua.
E que teimosia a dele!
E como ele adoraria sobreviver!

Wisława Szymborska, Poemas

Pablo Neruda

Pablo Neruda – O sonho

pablo neruda

Caminhando nas areias
decidi deixar-te.

Pisava um barro obscuro
que estremecia,
e afundando-me e voltando a sair,
decidi que saísses
de mim, que me eras pesada
como pedra cortante,
e planeei a tua perda
passo a passo:
cortar-te as raízes,
soltar-te sozinha ao vento.

Ai nesse minuto
coração meu, um sonho
com as suas asas terríveis
cobria-te.
Sentias-te engolida pelo barro,
e chamavas-me e eu não te acudia,
ias, imóvel,
sem defesa
até te afogares na língua de areia.

Depois
a minha decisão cruzou-se com o teu sonho,
e dessa ruptura
que nos partia a alma
surgimos de novo limpos, nus,
amando-nos
sem sonho, sem areia,
completos e radiantes,
selados pelo fogo.

Pablo Neruda, Poemas de amor

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – Um sorriso no rosto contagia

bráulio Bessa

Um sorriso no rosto contagia,
E enfeita muito mais que maquiagem
que depois de usar vem a lavagem
e a beleza se escorre pela pia.
Diferente da verdadeira alegria
que é obra de Deus, esse pintor
que enfeita nossa alma de amor,
muitas vezes paro, penso e analiso:
se o tempero pra vida ter mais sabor.

Charlie Chaplin, nosso gênio adorado
disse algo para o mundo refletir:
que um dia vivido sem sorrir
é de fato um dia desperdiçado.
Não precisa ficar mal-humorado,
Enfrentando um desafio ou uma dor,
o sorriso é sempre superior.
Como Chaplin, também deixo o meu aviso:
Se o tempero da vida é o sorriso,
Vou sorrindo pra vida ter mais sabor.

Sorrir tem um gosto bom,
sorrir é bom e faz bem.
Adoça e tempera a vida,
e a receita a gente tem:
é simples de começar,
basta você temperar
a sua vida também.

Cacaso

Cacaso – Explicação do amor

Cacaso

O amor em seu próprio corpo
recebe os cacos que lança:
Diálogo de briga ou rinha
em tom de magia branca.

O amor, o dos amantes,
é sangue da cor de crista:
Coagula insensivelmente
nas polifaces de um prisma.

O amor nunca barganha,
que trocar não é seu fraco:
Recebe sempre entornado
como a concha de um prato.

Amor não mata: previne
o que vem depois do susto:
Modela o aço e o braço
que vão suportar o muro.

O amor desconhece amor
sem ter crueza por gosto:
Contempla-se diante do espelho
sem nunca ver o outro rosto.

Cacaso, Poesia completa

Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta – Outubro

Maria Teresa Horta

Estas noites de mar 
incrustadas 
de luz 

ou estes olhos 
de pólos 
distanciados no nada 

Este ódio de chuva 
este dia  
montanha 

Esta arma de boca 
ou tempo encontrado 
com relógios na montra 

Este ardor de palavras 
no perfil 
das bocas 

Este grito que 
tenho 
nas mãos misturadas 

Ou mãos misturadas 
que tenho de outubro 
no sabor picante sentido nas casas 

Maria Teresa Horta, Eu sou a minha poesia

Elizabeth Bishop

Elizabeth Bishop – Dormindo no Teto

Elizabeth Bishop

É tão tranquilo aqui no teto!
Aqui é a Place de la Concorde.
O lampadário — o chafariz —
está apagado, escuro, frio.
O parque está vazio.

Embaixo, na parede, um rasgo no papel:
o Jardin des Plantes fechou os portões.
Essas fotografias são os bichos.
Farfalham flores, folhas e gravetos;
sob as plantas, cavam túneis os insetos.

Abandonemos chafariz e praça
e entremos embaixo do papel,
armados de rede e de tridente,
para enfrentar o gladiador-inseto.
Mas, quem dera poder dormir no teto…

Elizabeth Bishop, Poemas escolhidos

Ana Luísa Amaral

Ana Luísa Amaral – Lua de papel

Ana Luísa Amaral

Se eu cantasse o amor sem resultado ou causa,
seria mais sensata: chegava-me uma lua de papel,
um par de braços lisos, conformados

Se eu cantasse o amor sem causa ou resultado,
tinha muito mais paz: fingida em luas-cheias,
seria mais sensata e decerto poeta bem melhor

Assim o que me resta é lua cheia a trans-
bordar de tridimensional. A paz a falhar toda
e eu resolvida em causa a insistir papel. E amor.

Ana Luísa Amaral, 366 poemas que falam de amor – Organização Vasco Graça Moura

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa – Dá a surpresa de ser

fernando pessoa

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

Fernando Pessoa, 366 poemas que falam de amor – Organização Vasco Graça Moura

Cecília Meireles

Cecília Meireles – Se eu fosse apenas

cecilia meireles

Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
— de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa…

Cecília Meireles, 366 Poemas que falam de amor – Organização Vasco Graça Moura

Cesário Verde

Cesário Verde – De tarde

cesário verde

Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde, O livro de Cesário Verde

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa – Cabelos

antonio ramos rosa

Cabelos são os teus cabelos as tuas mãos
e que sinais de perfeição tão triste
que doçura do espírito da terra
que suavidade do espírito da água

Ombros seios umbigo velo sexo
tudo velado pelo ouro da sombra
da castidade ardente honra da carne
honra de amor para o que a conhecer

António Ramos Rosa, 366 poemas que falam de amor – organização Vasco Graça Moura