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Tudo é Poema

Adélia Prado

Adélia Prado – Regional

O sino da minha terra
ainda bate às primeiras sextas-feiras,
por devoção ao coração de Jesus.
Em que outro lugar do mundo isto acontece?
Em que outro brasil se escrevem cartas assim:
o santo padre Pio xii deixou pra morrer logo hoje,
último dia das apurações.
Guardamos os foguetes.
Em respeito de sua santidade não soltamos.
Nós vamos indo do mesmo jeito,
não remamos, nem descemos da canoa.
Esta semana foi a festa de São Francisco,
fiz este canto imitado:
louvado sejas, meu Senhor,
pela flor da maria-preta,
por cujo odor e doçura
as formigas e abelhas endoidecem,
cuja forma humílima me atrai,
me instiga o pensamento
de que não preciso ser jovem nem bonita
para atrair os homens e o que neles
ferroa como nos zangões.
Meu estômago enjoa.
Há circunvoluções intestinas no país.
Queria que tudo estivesse bem.
Queria ficar noiva hoje
e ir sozinha com meu noivo
assistir a Os cangaceiros no cinema.
Queria que nossa fé fosse como está escrito:
AQUELE QUE CRÊ VIVERÁ PARA SEMPRE.
Isto é tão espantoso
que me retiro para meditar.
Espero que ao leres esta
estejas gozando saúde,
felicidade e paz junto aos teus.

Adélia Prado, O coração disparado

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade – Palavras no mar

Escrita nas ondas
a palavra Encanto
balança os náufragos,
embala os suicidas.
Lá dentro, os navios
são algas e pedras
em total olvido.
Há também tesouros
que se derramaram
e cartas de amor
circulando frias
por entre medusas.
Verdes solidões,
merencórios prantos,
queixumes de outrora,
tudo passa rápido
e os peixes devoram
e a memória apaga
e somente um palor
de lua embruxada
fica pervagando
no mar condenado.
O último hipocampo
deixa-se prender
num receptáculo
de coral e lágrimas
— do Oceano Atlântico
ou de tua boca,
triste por acaso,
por demais amarga.
A palavra Encanto
recolhe-se ao livro,
entre mil palavras
inertes à espera.

Carlos Drummond de Andrade, José

Oscar Wilde

Oscar Wilde – Désespoir

As estações deixam, ao passar, sua ruína,
E pois, na Primavera, o narciso que abre
Só murcha quando a rosa em chama rubra arde,
E as violetas roxas florem no Outono,
E o croco faz no Inverno a neve estremecer;
Assim hão-de florir de novo os lenhos nus
E este barro gris enverdecer de chuva
E dar boninas, que um moço há-de colher.

Mas que dizer da vida cujo mar faminto
A nossos pés escorre, e das noites sem sol
Toldando os dias de que não resta esp’rança?
A ambição, o amor, tudo o que penso ou sinto,
Cedo é perdido, e há que achar prazer tão-só
Nas espigas ressequidas da morta lembrança.


Oscar Wilde, Poemas

Mario Faustino

Mário Faustino – Balada

Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o fato
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mais intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura),

Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirma-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra só um delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!

Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
De fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares – tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!

Mário Faustino, Poesia completa e traduzida

Cecília Meireles

Cecilia Meireles – De que são feitos os dias?

cecilia meireles

De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

Cecilia Meireles, Canções

Antonio Cicero

Antonio Cícero – Templo

Para que as Musas residentes lá no Olimpo
façam meus poemas palavras que desejem,
eu que, à sombra de um deus muito mais triste, habito
a fralda de uma montanha muito mais verde,

declaro não serem os versos que escrevo obras
de arte mas bases, paredes e donaires
de templos construídos com mãos e com sobras
de paixões, mergulhos, fodas, livros, viagens

(precário material com o qual é elaborado
tudo o que merece aspirar a eterna glória)
e — ainda com os seus andaimes — os consagro
a elas, às filhas alegres da Memória,

deusa que não é, como querem crer os néscios,
a guardiã do passado, com o qual pouco
se importa, mas antes a que nos oferece o
esquecimento quando canta o imorredouro.

Antonio Cícero, Guardar

Carlos Cardoso

Carlos Cardoso – Cavalos-marinhos

Há na palma de minha mão
um cavalo-marinho.
No fundo do que sou
mergulho
em raras profundezas.
Talvez assim entenda
que viver
não é acordar após dormir
e que não há maior beleza
que a solidão
e o fechar os olhos e partir.
Vejo que são rasas as pessoas
pelas partículas que vejo.
Se assim creio, assim crio
nesse mar selvagem
e apenas sumo
entre os redemoinhos
e os cavalos-marinhos
entre ondas
que abrigam e afogam
para dentro me jogam
me deixando lá.

Carlos Cardoso, Melancolia

Rosana Rios

Rosana Rios – Guarda-chuvas

Tenho quatro guarda-chuvas
todos os quatro com defeito;
Um emperra quando abre,
outro não fecha direito.

Um deles vira ao contrário
seu eu abro sem ter cuidado.
Outro, então, solta as varetas
e fica todo amassado.

O quarto é bem pequenino,
pra carregar por aí;
Porém, toda vez que chove,
eu descubro que esqueci…

Por isso, não falha nunca:
se começa a trovejar,
nenhum dos quatro me vale –
eu sei que vou me molhar.

Quem me dera um guarda-chuva
pequeno como uma luva
Que abrisse sem emperrar
ao ver a chuva chegar!

Tenho quatro guarda-chuvas
que não me servem de nada;
Quando chove de repente,
acabo toda encharcada.

E que fria cai a água
sobre a pele ressecada!
Ai…

Rosana Rios, Cheiro de Chuva

Mario Quintana

Mario Quintana – As Falsas recordações

Se a gente pudesse escolher a infância
que teria vivido, com enternecimento eu não
recordaria agora aquele velho tio de perna de pau,
que nunca existiu na família, e aquele arroio que
nunca passou aos fundos do quintal,
e onde íamos pescar e sestear nas tardes de verão,
sob o zumbido inquietante dos besouros

Mario Quintana, O sapato florido

José Saramago

José Saramago – Retrato do poeta quando jovem

Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

José Saramago, Os poemas possíveis

Louise Glück

Louise Glück – A íris selvagem

No final do meu sofrimento
havia uma saída.

Me ouça bem: aquilo que você chama de morte
eu me recordo.

Mais acima, ruídos, ramos de um pinheiro se movendo.
Então, nada. O sol fraco
cintilando sobre a superfície seca.

É terrível sobreviver
como consciência,
enterrada na terra escura.

Então tudo acabou: aquilo que você teme,
se tornando
uma alma e incapaz
de falar, encerrando abruptamente, a terra dura
se inclinando um pouco. E o que pensei serem
pássaros lançando-se em arbustos baixos.

Você que não se lembra
da passagem de outro mundo
eu te digo poderia repetir: aquilo que
retorna do esquecimento retorna
para encontrar uma voz:

do centro de minha vida veio
uma vasta fonte, azul profundo
sombras na água do mar azul.

traduzido pela escritora, desenhista, pintora e tradutora Camila Assad

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa – O lugar em que nasci e fui criado

Viajei em meu carro de madeira
na estrada que o tempo projetou.
O menino aqui dentro me guiou
e a saudade foi a minha passageira.
De repente avistei uma porteira
com a placa: Bem-vindo a seu passado.
Nessa hora o meu peito acelerado
pisou forte no freio da lembrança.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

Eu corria descalço nesse chão
que fervia na quentura do sol quente.
Não ficava cansado nem doente,
não tomava comprimido ou injeção.
Brincadeiras de polícia e ladrão
sem ninguém precisar andar armado,
com cipó o bandido era algemado
e um grito da mãe era a fiança.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

Num cavalo de pau eu galopava
levantando a poeira do terreiro.
Não comprava brinquedos com dinheiro,
porém tinha o que o dinheiro não comprava.
Um centavo sequer ninguém pagava
pra ser livre e correr por todo lado.
O boleto por Deus era quitado,
incluindo liberdade e segurança.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

São João tinha milho na fogueira
temperado com a nossa tradição.
Eu garanto, a comida do sertão
é melhor que comida estrangeira.
Vó dizia: – “Menino, vá na feira!”
Eu corria feliz e avexado.
Não sabia o que seria preparado,
mas sabia que mais tarde enchia a pança.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

Se chovia, corria pra biqueira,
tomar banho com toda a meninada.
Namorava sentado na calçada,
encostando cadeira com cadeira.
Tinha fé no poder da rezadeira
que curava quebranto e mau-olhado.
Um forró pé de serra bem tocado
garantia o sorriso e muita dança.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

Mesmo tendo fruta lá na geladeira,
inventava de roubar seriguela.
De repente um gritava: – “Lá vem ela!”
Era grande o pinote e a carreira.
No pescoço carregava a baladeira
e o bornó de retalho pendurado.
Ah, se o tempo pudesse ser domado,
mas é bicho feroz que não se amansa.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

Tantos banhos de rio e de açude,
tanta coisa carrego aqui comigo.
Cada canto, cada dia, cada amigo,
cada história da minha juventude.
Quer saber quem é rico em plenitude?
Observe o extrato retirado.
Se no cofre da alma está guardado
pelo menos um pedaço dessa herança.
Tem pedaços do meu tempo de criança
no lugar em que nasci e fui criado.

Bráulio Bessa, Um carinho na alma

Wisława Szymborska

Wisława Szymborska – Bebendo um vinho

Olhou, me deu mais beleza
e eu a tomei como minha.
Feliz, ingeri uma estrela.

Permiti que me inventasse
à semelhança do reflexo
nos seus olhos. Danço, danço
em montes de asas súbitas.

A mesa é mesa, o vinho é vinho,
numa taça que é taça,
e cinzas são cinzas no cinzeiro cinza.
Já eu sou imaginária,
incrivelmente imaginária,
imaginária até a medula.

Falo do que ele quer: das formigas
que morrem de amor sob uma
constelação de dentes-de-leão.
Juro que uma rosa branca,
regada com vinho, canta.

Rio, inclino a cabeça
com cuidado como a conferir
uma invenção. Danço, danço
na minha pele espantada,
no abraço que me concebe.

Eva da costela, Vênus da espuma,
Minerva da cabeça de Júpiter
eram mais reais.

Quando ele não me olha
procuro o meu reflexo
na parede. E vejo só
um prego do qual tiraram um quadro.

Wisława Szymborska, Para meu coração num domingo

Adélia Prado

Adélia Prado – Cabeça

Quando eu sofria dos nervos,
não passava debaixo de fio elétrico,
tinha medo de chuva, de relâmpio,
nojo de certos bichos que eu não falo
pra não ter de lavar minha boca com cinza.
Qualquer casca de fruta eu apanhava.
Hoje, que sarei, tenho uma vida e tanto:
já seguro nos fios com a chave desligada
e lembrei de arrumar pra mim esta capa de plástico,
dia e noite eu não tiro, até durmo com ela.
Caso chova, tenho trabalho nenhum.
Casca, mesmo sendo de banana ou de manga,
eu não intervo, quem quiser que se cuide.
Abastam as placas de ATENÇÃO! que eu escrevo
e ponho perto. Um bispo, quando tem zelo
apostólico, é uma coisa charmosa.
Não canso de explicar isso pro pastor
da minha diocese, mas ele não entende
e fica falando: ‘minha filha, minha filha’,
ele pensa que é Woman’s Lib, pensa
que a fé tá lá em cima e cá em baixo
é mau gosto só. É ruim, é ruim,
ninguém entende. Gritava até parar,
quando eu sofria dos nervos.

Adélia Prado, Poesia reunida